Sadage, clérigo da Cabala, dirigiu-se às portas do salão de adoração de teto alto da Fortaleza. A fumaça das tochas e dos incensários formava uma nuvem acima dos cultistas espalhados pelo chão de pedra. Eles imploravam por entrada no salão, imploravam pelo favor do Descendente das Trevas lá dentro.
Um grupo de discípulos de mantos escuros aproximou-se da outra direção, abrindo caminho entre os suplicantes que gemiam para encontrar Sadage. Ele reconheceu a líder como Needle, uma agente da Cabala encarregada de infiltrar-se em Nova Argívia. Ao chegarem a ele, ajoelharam-se. "Você retornou," disse Sadage. "Espero que por um motivo que valha a pena."
Em resposta, Needle desembrulhou uma grande espada negra, erguendo-a para aceitação. "Trago-lhe um presente para o Descendente das Trevas."
"Um presente?" Sadage estendeu a mão para pegá-lo, mas parou, a um fôlego de ar entre as pontas de seus dedos enluvados e o metal. Um miasma escuro agarrava-se à lâmina. "O que é isto?"
Needle olhou para lui, seus olhos arregalados, as pupilas escuras dilatadas de reverência. "Uma lâmina lendária, uma bebedora de almas. Aquele que forjou a espada matou um dragão ancião e absorveu sua força — "
Sadage disse: "Pare." Tão perto do salão de adoração e de seu resplandecente ocupante, ele não podia se dar ao luxo de deixar a disciplina escorregar. "Quem a usou para matar um dragão ancião?"
Needle hesitou. O discípulo ao seu lado disse: "Diz-se que foi o Planeswalker Dakkon Lâmina — "
Sadage fez um gesto brusco. "Foi Belzenlok! Belzenlok a forjou. Belzenlok abateu o dragão ancião. Belzenlok."
Em um coro murmurante, o grupo de discípulos repetiu obedientemente: "Foi Belzenlok, Senhor dos Ermos, Belzenlok, Matador de Dragões Anciões."
Needle acrescentou: "Esta é a espada de dele. Belzenlok, Rei de Urborg, Lorde Demônio. Eu a devolvo a ele."
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"Muito bem." Sadage tirou a espada da mão de Needle. O contato fez sua pele arder, mesmo através das luvas. "Você conquistou sua recompensa."
Needle sorriu, tremendo enquanto levantava-se. Ela puxou o capuz para baixo, expondo a garganta. Sadage ergueu a mão e lançou o feitiço. Lentamente, a pele de Needle descascou de seu peito enquanto a luz violeta do feitiço gentilmente perfurava seu coração.
Enquanto Needle contorcia-se em morte exultante, os outros discípulos assistiam em temor invejoso. Sadage abriu as portas para o salão de adoração, pronto para apresentar a lâmina negra ao seu mestre escolhido, pronto para coletar sua própria recompensa final do Lorde Demônio.
ii.
Jhoira inclinou-se para frente sobre o leme de sua nave de mergulho e sussurrou: "É isso." Ela puxou uma alavanca para parar o movimento à frente. Fora uma escolha artística moldar a nave subaquática como um grande peixe revestido de metal, com barbatanas para locomoção e direção e duas aberturas bulbosas na proa como olhos gigantes, mas ela movia-se pelas difíceis correntes marítimas como um sonho.
Do lado de fora das aberturas, peixes prateados dardejaram para longe através da água arenosa, confusos pelos feixes estreitos das luzes e pelo estranho peixe de metal empurrando através da floresta de algas. Hadi, seu assistente artífice, agarrou o corrimão de apoio enquanto a nave sacudia com a correnteza. Ele inclinou-se para olhar pela segunda abertura. "Onde?" Ele era um homem mais velho, e viera para a Academia Tolariana vindo de Jamuraa. O fato de ele ter concordado em ajudá-la nesta busca selvagem dizia muito sobre seu senso de aventura.
Jhoira ajustou o leme com mais cuidado e apontou, o dedo quase tocando o vidro curvo. "Ali, está vendo?" Parecia óbvio para ela; a longa espinha semienterrada no lodo e nas algas era reta demais para qualquer formação natural, ao menos nesta baía. Mas ela conhecia aquela forma tão bem que era como saudar um velho amigo.
Arte de Brad Rigney
"Você tem olhos aguçados," disse Hadi, e puxou o tubo acústico para ela. "Achei que restaria mais dela."
"Não depois de tanto tempo." Jhoira pegou o tubo acústico e chamou por ele: "Ziva, estou direcionando minhas luzes para lá. Consegue ver?"
O tubo enviou sua voz através da água, transformada em vibrações que os tritões vodalianos podiam entender. Lá fora, Ziva nadou descendo pela abertura, o lodo na água obscurecendo os roxos e azuis profundos da armadura natural em seus braços e flancos. Ziva pausou o suficiente para sinalizar uma afirmação em direção à abertura, então com um movimento de sua cauda poderosa, desapareceu na escuridão.
Jhoira esperou pelo veredito, tentando não saltitar de tensão como Hadi. Então Ziva reapareceu e nadou mais para perto do peixe de metal até esbarrar no casco. Sua cauda enrolou-se pela abertura e Jhoira a ouviu tatear pela extremidade externa do tubo acústico. Então a voz de Ziva foi transportada para o compartimento. "Está repousando em uma prateleira, presa por ervas marinhas e areia, mas sem rochas," relatou ela. "Não deveremos ter problemas para erguê-la à superfície — se o preço permanecer o mesmo."
Sim, exatamente como eu esperava! pensou Jhoira. Era difícil conter seu júbilo, mas tinham muito trabalho árduo pela frente. "O preço será dobrado se vocês conseguirem trazê-la em dois dias," disse ela a Ziva. Os tritões precisavam do dinheiro, e Jhoira não tinha problemas em pagar por algo que seria a culminação de anos de trabalho cuidadoso e planejamento.
O riso de Ziva foi como água borbulhante. "Você a terá em um!"
Jhoira recostou-se contra o couro gasto do assento do piloto. A combinação inebriante de alívio e propósito renovado dava-lhe vontade de dançar. Depois, ela prometeu a si mesma. Quando estivesse na margem ao lado dela, então ela dançaria. "Eu sabia que conseguiríamos."
"Você sabia," disse Hadi, soando extasiado. "Não tenho certeza se mais alguém acreditava que era possível!"
"Bem, eles acreditarão agora," disse Jhoira. O restante dos tritões aproximou-se para juntar-se a Ziva, deslizando em padrões ao redor dela enquanto esperavam ordens. "Todos prontos?" Jhoira disse no tubo acústico. "Agora ergueremos a Weatherlight."
iii.
Dominária coalesceu ao redor de Gideon e a primeira coisa que o atingiu foi o fedor de plantas apodrecendo e terra úmida. Ele estava sobre uma alta fundação de pedra entre uma cidade em ruínas e um pântano fedorento e tomado pelo mato, a paisagem desolada sob um céu coberto de nuvens. Estruturas de pedra cinza outrora altas e graciosas haviam perdido seções de muros e telhados, e algumas eram apenas montes de pedras tombadas. A névoa envolvia a grama alta, poças de lama borbulhantes e árvores apodrecidas do pântano, vazio de qualquer vida exceto nuvens de insetos. Era como a tentativa de um artista de capturar visualmente uma representação de morte e fracasso. Ele não pôde suprimir o pensamento amargo: Quão apropriado para este momento.
A segunda coisa que Gideon notou foi o buraco em seu ombro e sua dor perfurante. Ele respirou fundo e não cambaleou nem desabou sobre a pedra lamacenta. Liliana, Chandra e Nissa estavam por perto, desgrenhadas e abaladas pela batalha. Aquele não era o momento para ele mostrar fraqueza. Tornou sua voz equilibrada e moderada e admitiu: "Aquilo não saiu conforme o planejado."
"Ah, não saiu?" Liliana voltou-se para ele, pondo uma expressão de falsa surpresa. "O que o faz dizer isso? Foi o rio de mortos-vivos em que quase me afoguei? Ou Nicol Bolas batendo em você como um brinquedo de criança?"
Gideon estava com dor demais para uma resposta inteligente. Além disso, ela estava certa. Ele estava aqui ferido, mal mantendo-se de pé, sua sural perdida. Haviam falhado totalmente, foram irremediavelmente superados e tiveram sorte em sobreviver. O pensamento de quantos outros não tiveram a mesma sorte era um peso nauseante em seu coração.
Chandra esfregou os olhos. "Onde está o Jace?"
Sobressaltado, Gideon olhou ao redor novamente. Ela tinha razão, não havia sinal de Jace. "Ele não ficou em Amonkhet. Eu o vi partir."
O olhar de Liliana cruzou-se com o dele. Todos conheciam seu local de encontro. A ausência de Jace não poderia significar nada de bom. Ela comprimiu os lábios e disse: "Talvez ele tenha se atrasado."
"Ele não vem." Nissa sibilou as palavras, sua voz áspera. "Ele desistiu."
"Ele não faria isso." Gideon estava certo. Jace não os abandonaria.
Nissa ignorou-o, zangada demais para ouvir. "Um plano quase destruído. Tanta morte." Ela balançou a cabeça em desgosto. "E nós jogamos direto nas mãos de Bolas!"
Chandra encolheu os ombros e desviou o olhar. "Ajani estava certo. Nunca deveríamos ter ido lá."
"Tivemos que tentar — " Gideon começou.
Liliana voltou-se para Nissa, com toda a calma racional. "Não foi um desastre; matamos Razaketh. O restante . . . não poderíamos ter antecipado — "
"Sim, o seu demônio está morto," disparou Nissa. "Você conseguiu o que queria e fugiu. Você não se importa em derrotar Bolas, você só está nos usando para se libertar do seu pacto."
"Claro que quero derrotar Bolas!" Liliana protestou. "Fugi para salvar minha vida — exatamente como Jace fez antes de mim."
Nissa persistiu: "E por que aqui?" Ela lançou um braço, gesticulando para o pântano morto. "Como você quer que arrisquemos nossas vidas por você aqui?"
"Seu precioso Ajani sugeriu que nos encontrássemos aqui," disse Liliana, soando ofendida.
Gideon notou que ela não respondera à pergunta, e tinha um mau pressentimento de que sabia o porquê. Mas ele disse: "Nissa, não é o momento. Estamos todos exaustos — "
Chandra disse categoricamente: "Seu último demônio está aqui, não está, Liliana?"
Liliana hesitou, e seu olhar calculista moveu-se de Chandra para Nissa, mas nem ela teve o descaramento de protestar. Sua mandíbula endureceu e ela disse: "Belzenlok está aqui."
Gideon soltou um suspiro resignado. Claro que está. "Nissa — "
Liliana deu um passo em direção a Nissa. "Se eu não estivesse restringida pelo meu pacto, teríamos destruído Bolas em Amonkhet." Com a voz tornando-se persuasiva, ela acrescentou: "Consigo matar Belzenlok — mas você é a única poderosa o suficiente para me ajudar."
Gideon fez uma careta. Conseguia ver que Nissa não estava de humor para lisonjas, e era uma medida do desarranjo de Liliana que ela achasse que aquilo funcionaria. "Liliana — "
Chandra fez um ruído de escárnio. "Você quer usá-la. Como queria me usar. Achei que fôssemos amigas, Liliana."
"Chandra, isso não ajuda," disse Gideon.
Liliana ignorou a ambos. Falando apenas para Nissa, ela disse: "Belzenlok é adorado aqui pela Cabala, um culto de morte. Você pode despertar os entes do remanescente de Yavimaya em Urborg para invadir a Fortaleza deles onde ele se esconde. E eu posso usar o Véu de Correntes para matá-lo."
Gideon fez uma careta. O Véu de Correntes, um poderoso artefato dos Onakke, permitira que Liliana matasse dois demônios. Mas drenava a força dela, e ele achava que era muito mais perigoso, para o portador e possivelmente para todos os outros ao redor, do que até ela admitira.
O lábio de Nissa curvou-se. "Não. Não vou te ajudar. Não fiz um juramento para salvar a sua pele." Ela voltou-se para Gideon. "Diga a ela. Diga a ela que não vamos deixar que ela nos use novamente. Diga a ela que ela pode nos ajudar contra Bolas ou partir."
Gideon inspirou bruscamente, conseguindo não fazer uma careta com a dor pulsando em seu ombro. Trabalhar com Liliana podia ser uma provação até nos melhores momentos, mas haviam feito um acordo. "Precisamos da ajuda de Liliana para destruir Bolas, e ela não pode fazer isso até que este último demônio esteja morto."
Nissa estava incrédula. "Isso fará dela uma ameaça interplanar tão grande quanto o Bolas!"
"Não acredito nisso." Gideon tentou soar calmo e racional, mas a dor aguçava sua voz. "Ela não está nos usando, é a melhor chance que temos contra o Bolas. E não podemos deixar Belzenlok causar estragos neste plano. Nissa — "
Fervilhando, Liliana disse: "Eu salvei sua vida, Nissa! É assim que você me retribui?"
"Não te devo nada." Nissa recuou, desprezo em cada linha de seu corpo. "Nenhum de nós deve. Se o restante de vocês é cego demais para perceber isso, não posso ajudá-los." Ela afastou-se.
"Nissa!" Chandra encarou-a. "Se você não quer ajudar a Liliana, eu entendo, mas o Bolas — "
Gideon buscou um argumento persuasivo, mas a dor dispersava seus pensamentos. "Nissa, você fez um juramento — "
"Não." Nissa afastou-se ainda mais deles, sua expressão dura como mármore. "Não suporto ver outro plano quebrado antes de tornar o meu próprio lar inteiro. Sinto muito, mas minha vigília acabou."
Chandra gritou: "Nissa!"
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Mas Nissa já estava saindo do plano. Por um batimento cardíaco sua forma brilhou com luz verde, o air ao redor dela preenchido pelas sombras de videiras e folhas. Então ela desapareceu, deixando para trás o perfume desvanecente de folhagem verde e flores.
Ficaram congelados, a brisa úmida agitando seus cabelos. Liliana desviou o olhar, com a mandíbula tensa, claramente furiosa. Chandra enterrou o rosto nas mãos e Gideon suprimiu um gemido. Ele tinha que encontrar Nissa, convencê-la a voltar, mas a dor trespassava seu peito a cada respiração.
Então Chandra ergueu a cabeça e disse: "Eu vou também."
"O quê?" Gideon voltou-se para ela, horrorizado. O movimento puxou seu ferimento e sangue escorreu pelo seu lado. "Chandra — "
"O quê?" Liliana disse incredulamente. "Você está brincando?"
"Não estou desistindo," Chandra disse rapidamente, nada além de determinação em sua expressão. "Eu nunca desistiria! Mas você tem razão, Gideon, preciso aprender com isto. Falhamos em Amonkhet porque eu era fraca demais!"
Liliana gaguejou: "Não foi por isso que falhamos — "
O queixo de Chandra ergueu-se. "Tenho que me tornar mais forte."
Gideon tentou: "Chandra, quando eu disse 'aprender com o fracasso', não foi isso que eu — "
"Sei o que estou fazendo!" disse ela, e antes que Gideon pudesse respirar de novo ela se fora. Sua forma desapareceu em um ímpeto de fogo conforme ela caminhou do plano.
Gideon encarou o espaço vazio onde suas duas camaradas estiveram. Em algum ponto ele perdera o controle da situação, e não tinha certeza de como. E a pulsação em sua cabeça estava pior.
Liliana voltou-se contra ele. "E então? Para onde você vai? Qual é a sua desculpa?"
Gideon soltou o ar cansado. "Eu fico." Olhou para baixo para ela. "Nada mudou. Precisamos de você para destruir Bolas, e você precisa destruir este demônio."
"I — " Ela parou, encarando-o. Então sua expressão endureceu novamente. "Bom. Então deveríamos prosseguir com isso."
"Temos que fazer um plano — " A dor o trespassou novamente, pior desta vez, como se a garra de Bolas ainda estivesse em seu ombro. Ele cerrou a mandíbula, respirou através dela e tentou de novo. "Um plano. Temos que — "
Liliana jogou os braços para o ar. "Sei que você está ferido, pare de ser uma criança gigante e apenas admita!" Ela praguejou baixinho. "Venha, encontraremos um lugar para que eu possa curá-lo."
Gideon ficou surpreso. "Não sabia que você conseguia curar pessoas."
"A lista de coisas que você não sabe poderia preencher todos os arquivos em Dominária," Liliana disparou. "Agora venha."
...
Bem, este é mais um desastre, Liliana pensou enquanto seguiam um caminho tomado pelo mato mais para dentro da cidade em ruínas. Com Nissa desistindo em um acesso de raiva e Chandra saindo intempestivamente para encontrar a si mesma ou seja lá o que ela estivesse balbuciando, a estratégia de Liliana estava tão arruinada quanto esta cidade. E Jace, desaparecido sem uma palavra. Talvez ele não quisesse mais ter nada com ela . . . Aquele pensamento a perturbava mais do que ela queria admitir. Ela o encontraria de novo, o convenceria, mas precisava matar Belzenlok primeiro.
Lançou um olhar lateral para Gideon. Acontecesse o que acontecesse, ela não podia deixá-lo perceber que ela fugira da batalha, exatamente como Nissa a acusara. Ele era tudo o que lhe restava, e ela precisava da ajuda dele para matar Belzenlok. Mas havia um tom pálido em sua pele morena, linhas de dor e tensão gravadas ao redor de sua boca. Se ele viver. O ferimento do grande idiota devia ser muito pior do que ele estava disposto a admitir.
Suas botas chapinhavam na lama e raspavam contra pedras de pavimentação quebradas e vidro estilhaçado. A morte envolvia esta cidade e o pântano ao seu redor, tecida com a névoa que derivava sobre o solo úmido. Sombras moviam-se naquela névoa, rostos que apareciam e depois desapareciam. A morte estava em todo lugar.
A visão deste lugar fora outro choque. Liliana não conseguia acreditar que isto era Vess. Se os outros não estivessem parados ao seu lado, ela teria pensado que de alguma forma transplanara para a parte errada de Dominária.
Ao menos a cidade não estava tão deserta quanto parecera a princípio. Alguns dos edifícios de pedra mostravam tentativas de reparo, com muros e telhados remendados, degraus limpos e venezianas de madeira para janelas altas que outrora ostentaram vitrais. A grama rasteira do pântano fora cortada de alguns pátios, e um deles continha cabras amarradas. Uma sensação de algo observando fez Liliana examinar uma linha de telhado mais cuidadosamente. A forma perto de uma chaminé não era uma gárgula mas — Não um anjo, pensou ela. Uma visita da santimoniosa Igreja de Serra teria sido a cereja perfeita neste desastre imundo de dia. Era um soldado aven em vigília, a luz cinza nublada brilhando em sua armadura, no branco de suas penas e asas dobradas.
À frente, sobre os telhados, a curva de pedra de uma antiga ruína Thran surgia da névoa, os lados lisos escuros de musgo. Tinha a forma da lâmina de um machado, como se um gigante a tivesse cravado na terra e a deixado ali. Aquilo ao menos era uma visão familiar, algo que não mudara em todas as décadas que ela estivera fora.
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Na curva seguinte havia uma praça ampla cercada por casas altas, todas em desalinho mas algumas com vitrais ainda brilhando nas janelas estreitas dos andares superiores. Em um lado havia uma fonte e algumas barracas de mercado de madeira. Perto do mercado erguia-se um edifício alto e irregular que devia ser uma estalagem. Fumaça saía das chaminés e as portas estavam abertas. As pessoas reunidas em frente encaravam curiosamente Liliana e Gideon. Todos estavam bem armados, mas não fizeram movimentos hostis. Gideon assentiu em saudação a eles, então arruinou o efeito ao arquejar e fazer uma careta de dor.
Aquele era o centro da cidade, e parecia estar mal se agarrando à vida, uma sombra pálida da praça de mercado movimentada que outrora fora tão familiar quanto as costas de sua própria mão. Liliana engoliu um palavrão. O que aconteceu aqui?
"O que foi?" Gideon perguntou baixinho.
Liliana fez uma careta. Odiava mostrar fraqueza. "Nada."
Gideon suspirou. "Se vamos fazer isto, temos que ser honestos um com o outro."
Liliana disparou: "Não é nada!" Enquanto ele a olhava ceticamente, ela lembrou a si mesma que ele era seu único aliado. E, realmente, não havia sentido em esconder este fato. "Não há nenhuma grande conspiração, é apenas que este lugar mudou. A última vez que estive aqui, esta cidade era cercada por floresta, não por um pântano fedorento."
As sobrancelhas de Gideon baixaram-se ao observar a praça. "Por que você não pôde apenas dizer isso?"
"Porque não é nada," Liliana disse entre dentes cerrados.
"Esse é exatamente o meu ponto — " Ele fez uma careta e cortou as palavras. "Por que você estava aqui?"
"É onde eu nasci." Ela ignorou a expressão sobressaltada dele. "Venha, antes que você caia — você é pesado demais para eu arrastar."
...
Liliana nem sequer precisou ameaçar ninguém para conseguir serviço, embora a estalagem claramente estivesse funcionando como hotelaria apenas no nome. O estalajadeiro pareceu francamente atônito com a ideia de que queriam ficar, mas imediatamente os conduziu a um quarto no primeiro andar, sem dúvida escolhido porque Gideon estava deixando um rastro de sangue e não parecia capaz de subir as escadas.
O estalajadeiro era um homem grande de pele escura com uma família abundante que continuava aparecendo nas portas para encarar os visitantes conforme avançavam pelo corredor. O quarto era amplo e continha uma cama e uma variedade aleatória de mobília mofada. Liliana guiou Gideon a um sofá baixo e o ajudou a desabar sobre ele.
"Faz muito tempo que não temos viajantes," o estalajadeiro admitiu enquanto atiçava o fogo na lareira. Uma jovem mulher, vestida com roupas de trabalho práticas com uma espada curta em um cinto na cintura, trouxe um balde de água para despejar no caldeirão da lareira. Um menino trouxe uma pilha de cobertores dobrados. Uma menina apareceu com uma cesta de bandagens e suprimentos de cura, e outro menino veio com uma bandeja de comida e bebida. Apesar do mau humor de Liliana, não havia do que reclamar do serviço. O estalajadeiro nem sequer pedira para ver as moedas deles.
"Vou precisar de quaisquer ervas curativas que você tiver," Liliana ordenou. Conforme as crianças partiam, ela acrescentou: "O que aconteceu aqui? Este lugar . . . mudou desde a última vez que o vi."
"É a Cabala," o estalajadeiro disse, ajustando o suporte do caldeirão para que ficasse sobre as chamas crescentes. Acrescentou sombriamente: "Eles pretendem dominar o mundo inteiro."
Certamente o homem devia estar exagerando. Liliana afastou a tentativa desastrada de Gideon de remover sua armadura e ela mesma desfez as fivelas. Enquanto ele estoicamente fingia que não havia um buraco maciço em seu ombro, Liliana pôs-se a limpar e bandar o ferimento. Ela sabia que Belzenlok suplantara o deus Kuberr para ganhar o controle sobre a Cabala, que a Fortaleza deles agora era em Urborg, mas teriam eles realmente se espalhado tanto? "A Cabala veio para cá, então. Para Benália."
O estalajadeiro assentiu, adicionando mais lenha ao fogo. "Lutamos para mantê-los fora de Aerona, mas falhamos. Você vê o que a influência deles fez com a Floresta de Caligo ao longo dos anos." Ele fez um gesto de desamparo.
"A floresta inteira?" Liliana disse em descrença, voltando-se para encará-lo. "Até o rio?"
"E além. O rio está assoreado, intransitável. É o Pântano de Caligo agora. E eles têm um novo líder nesta área, um poderoso lich agindo como general dos restos sombrios. A Igreja de Serra veio ajudar e houve uma grande batalha há apenas alguns dias, mas a Cabala nos derrotou." Ele levantou-se. "Vou buscar mais lenha para o fogo."
A menina retornou com a caixa que guardava o estoque de ervas curativas da estalagem. "Isto é tudo o que nos resta. A maior parte do nosso suprimento foi usada nos soldados que ficaram aqui."
Folheando os pacotes, num impulso Liliana perguntou a ela: "Alguém aqui lembra da Casa de Vess?"
A menina parou para considerar. "Há histórias de fantasmas sobre a velha mansão em ruínas no pântano, sobre o filho morto-vivo e a filha maligna que fugiu — "
Experimentação Obscura | Arte de Bastien L. Deharme
"Não, não." Liliana ergueu uma mão de contenção. Não era de surpreender que os eventos daquele dia tivessem se tornado uma lenda local, mas ela não tinha interesse em ouvi-la. "Essa parte eu conheço. Refiro-me à verdadeira história da família, o que aconteceu com eles depois."
"Não, disso nunca ouvi falar." A menina ergueu o balde de água suja. "Posso perguntar por aí para a senhora, se quiser."
"Não, não é importante." Liliana fez sinal para que ela partisse. Enquanto a menina saía, ela encarou as venezianas fechadas das janelas, com a testa franzida.
Gideon moveu-se um pouco, piscando para ela. "O que foi?"
Ela balançou a cabeça e olhou para os pacotes de ervas. "Eles não têm o que eu preciso, mas deve crescer por perto. Vou buscar." Ele recostou-se no sofá, fazendo uma careta com a dor do movimento. Ela exibiu um sorriso malicioso por formalidade e acrescentou: "Não tema que eu o abandone."
"Não temo isso," ele disse, suavemente, olhando para ela. "Você precisa de mim para matar Belzenlok."
Liliana viu-se sem resposta e, duplamente irritada, deixou a estalagem.
...
A terra mudara tanto que Liliana sabia que as ervas que queria poderiam não mais existir, mas eram a maneira mais rápida de curar Gideon. Precisavam bolar um plano e lidar com Belzenlok o mais rápido possível.
Uma vez passadas as ruínas, ela seguiu para dentro do pântano. Encontrou as ervas em uma ilha sobrevivente de terreno mais alto e colheu o que precisava. Endireitou-se, olhando através de um bosque de árvores envoltas em musgo e, por um momento, a paisagem estranha foi familiar novamente. Foi aqui que ela encontrara o Homem de Corvo pela primeira vez.
Você tentou ajudar Josu assim, com estas mesmas ervas, pensou ela, a memória daquele dia inesperadamente clara. Ela pretendera apenas curá-lo e, em vez disso, transformou-o em um monstro morto-vivo sem mente que matou Lady Ana, matou seus servos . . . E então ela fugira do plano quando sua centelha acendeu, deixando sua mãe e seu pai, toda a sua família e amigos, todos que ela conhecera, aos seus destinos. O feitiço que animava Josu deve ter quebrado quando ela deixou o plano, mas ela nunca pensara no que sua família achara da carnificina em seu quarto. Devem tê-la dado como morta, certamente. Teriam procurado por ela? Teriam pensado que Josu a matara?
Envolta em seu súbito novo poder como planeswalker, tentando sobreviver, ela se recusara a pensar neles desde aquele dia. Fora há tanto tempo, e as memórias cheias de dor eram como um vislumbre na mente de uma pessoa diferente.
Não seja estúpida, disse a si mesma. A Casa de Vess era agora apenas uma lenda, uma história de fantasmas para divertir as crianças da cidade. Viveram suas vidas, envelheceram e morreram. Nada restaria da mansão exceto uma pilha de entulho, sem pistas a descobrir. Mas ela viu-se caminhando, seus pés encontrando o caminho familiar enterrado sob toda a lama e grama do pântano.
Emoções inconvenientes, atrapalhando seu objetivo.
Liliana abriu caminho através de uma moita de grama tão alta quanto uma muda de árvore e parou abruptamente.
Tinha que ser sua imaginação febril. A casa ainda estava aqui.
As árvores retorcidas e a vegetação pesada haviam crescido até os muros de pedra cinza, mas ela conseguia ver a forma da ala central, a curva da torre mais próxima. Isto é loucura, pensou ela. Loucura ou . . .
Ou algum poder estranho em ação.
As portas para o salão principal estavam abertas. Foi surpreendentemente difícil obrigar-se a atravessar o campo aberto e subir os degraus, mas o pavor e a necessidade de saber impulsionaram-na.
Ela entrou. A luz da entrada incidia nos corrimãos entalhados da galeria superior, nas tapeçarias penduradas na parede ao fundo e, por um instante, foi como se a casa estivesse inteiramente intacta, exatamente como era. Como se tivesse existido em uma bolha atemporal, preservada como um inseto no âmbar. Mas então ela sentiu o cheiro de sangue e podridão, e o momento quebrou. Ela piscou e viu que as tapeçarias estavam em trapos, os entalhes quebrados e marcados pelo tempo. Mas ainda assim, esta casa inteira deveria ser uma ruína, pensou ela. Algo fez isto, deliberadamente. Para que ela pudesse ser trazida aqui para ver? Se sim, poderia ser o Homem de Corvo, perseguindo-a pelos planos. Mas por quê?
Ela seguiu o cheiro de sangue mais para dentro do salão.
Ali, diante da grande lareira, símbolos haviam sido carbonizados no chão de pedra, sua forma e padrão obscurecidos por restos secos do que devem ter sido enormes jorros de sangue. Dúzias de velas apagadas cercavam o local, suas poças de cera derretida obscurecendo ainda mais os vestígios deixados por algum poderoso feitiço necromântico. Ar frio emanava do chão como uma sepultura aberta.
A mandíbula de Liliana doeu e ela percebeu que era porque seus lábios haviam se retraído em um rosnado subconsciente.
O que quer que tivesse acontecido aqui, não era coincidência.
...
A noite começara a cair quando Liliana alcançou os limites da cidade. Ela mal iniciara o caminho através das ruínas quando sentiu o surto de malícia morta-viva. Murmurou: "Não tenho tempo para isso" e começou a correr.
Ouviu a luta antes de alcançar a praça e dobrou a última esquina para ver uma batalha à frente.
As barracas do mercado haviam sido incendiadas e vultos escuros lutavam pela praça, a luz do fogo brilhando em lâminas rutilantes. Os habitantes da cidade eram fáceis de identificar, vestindo armaduras remendadas e empunhando porretes e ferramentas improvisadas, bem como espadas e machados de batalha. Alguns já haviam caído, e o aven que ela vira no telhado jazia morto nos paralelepípedos, com as asas em um emaranhado quebrado.
Os atacantes vestiam armaduras negras com espinhos e pontas afiadas, o mais diferente possível do branco, prata e vitrais benalitas. Cavaleiros mortos-vivos da Cabala, Liliana pensou com nojo. Haveria um clérigo da Cabala aqui em algum lugar, um cultista humano vivo, para controlar os revividos sem mente.
Gideon subitamente tombou para fora das sombras perto da estalagem. Rolou até ficar de pé e então cambaleou, ainda claramente enfraquecido pelos seus ferimentos. Não vestia armadura e o sangue manchava suas bandagens e roupas, mas ele balançava uma espada emprestada conforme um cavaleiro montado avançava sobre ele. O cavaleiro vestia uma pesada armadura negra cravejada com espinhos afiados e estava montado sobre um grande cavalo blindado. Não, conforme a criatura agitava a cabeça Liliana avistou a carne apodrecida e o osso branco pelas frestas de sua armadura, os poços de trevas onde seus olhos deveriam estar. O cavaleiro não usava elmo e sua cabeça estava coberta por carne pálida e encolhida, seu cabelo uma juba branca apodrecida.
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Gritos irromperam da estalagem quando as portas foram escancaradas. Outro cavaleiro morto-vivo arrastava dois vultos em luta para fora. Liliana reconheceu a jovem mulher e o menino que haviam ajudado em seu quarto. Gideon lançou-se em direção a eles e o cavaleiro montado impeliu sua montaria para atropelá-lo.
Hah, você terá que fazer melhor que isso, Belzenlok, Liliana pensou ao erguer as mãos. Ela extraiu força dos mortos caídos no pavimento frio, dos ossos enterrados nas ruínas, dos cadáveres apodrecidos no pântano, dos fantasmas na névoa. Conforme os entalhes em sua pele brilharam em violeta, raios dispararam de suas mãos para atingir uma dúzia de cavaleiros de armadura negra. Ela avançou para dentro do caos da batalha.
Um revivido a pé investiu contra ela e ela dispensou um único gesto para enviar uma nuvem negra disparando do chão. Ela envolveu sua forma contorcida e o apodreceu até o nada enquanto o que restava de sua armadura atingia o pavimento.
O cavaleiro morto-vivo avançou sobre Gideon e ergueu sua lança para um golpe mortal. Liliana focou sua vontade e a enviou para dentro da forma de armadura negra.
No instante seguinte, ele era dela. Ela o fez baixar a lança e virar sua montaria para longe de Gideon. Rompeu a conexão da montaria com o poder que a animava. Conforme ela colapsou em uma pilha de ossos, o cavaleiro tombou ao chão. Ela considerou usá-lo contra os outros, mas a dúzia ou mais que ela já destruíra virara a batalha. Gideon levantou-se novamente e golpeou os poucos combatentes restantes perto da estalagem. Gritando em triunfo, os sobreviventes da cidade reagruparam-se para atacar os outros.
Liliana ergueu a mão para destruir o último cavaleiro, mas algo sussurrou em sua mente: o Vazio aguarda.
Liliana congelou, o coração batendo forte. Depois seus lábios curvaram-se em desprezo. Era um truque. O mestre do cavaleiro morto-vivo tinha que ser o lich que devastara Caligo para a Cabala, e o lich tinha que ser aquele por trás da preservação arcana da Mansão Vess. Liliana explorou a conexão, curiosa. Como este lich poderia saber tanto sobre ela? Seria possivelmente . . .
Uma imagem do rosto do lich ardeu diante dela. O rosto era o de Josu.
Arte de Tyler Jacobson
Não. O coração de Liliana apertou-se no peito. Não pode ser. "Não!" gritou ela.
Sua raiva e consternação romperam a conexão. O cadáver do cavaleiro explodiu e a armadura e ossos apodrecidos voaram pela praça.
Os habitantes da cidade haviam capturado o clérigo humano e o prendido ao chão com uma lança no peito. Liliana afastou-os com os ombros e agarrou-o pela perna para arrastá-lo para a luz do fogo. Sua voz áspera de raiva, ela exigiu: "Onde está Josu? O que Belzenlok fez com ele?"
Ela mal estava ciente de Gideon movendo-se para o seu lado, observando-a com preocupação.
O clérigo arquejou uma risada, então engasgou: "Ele sabia, nosso Lorde Demônio, o Descendente das Trevas, ele sabia que você viria! Ele transformou seu precioso irmão em seu servo, o comandante de suas forças profanas!"
"Josu serve a Belzenlok," Liliana repetiu, o choque fazendo as palavras soarem calmas. O rito necromântico na Mansão Vess fora usado para transformar Josu de um morto-vivo sem mente em um lich poderoso, capaz de usar as memórias e o treinamento militar de Josu, mas escravizado a Belzenlok. Belzenlok está usando meu próprio irmão contra mim, Liliana pensou. O irmão cuja alma ela tornara vulnerável com seu primeiro uso descontrolado de poder.
"Ele serve ao nosso senhor, ele . . ." O clérigo borbulhou enquanto o sangue enchia sua garganta. Ele arquejou: "O Vazio aguarda," e desabou sem vida no pavimento.
Liliana encarou-o, a fúria crescente sobrepujando o horror pelo que acontecera a Josu. Ela não permitiria isso. Seu irmão não seria escravo de Belzenlok. Ela o libertaria não importa o que fosse necessário. "Você pagará por isto, Belzenlok," disse ela, rangendo as palavras em fria fúria. "Não importa o que eu tenha que fazer, você pagará."
22 de Março de 2018 | Por Martha Wells
Retorno a Dominária: Episódio 2
Liliana caminhava pelo Pântano sob a luz nebulosa da alvorada, a grama lamacenta arrastando-se em suas roupas. À frente, um bando de corvos levantou voo, irrompendo das sombras que envolviam uma árvore morta. Furiosa, ela gritou: "Sei que você está aqui! Enfrente-me, maldito!" Ela estivera vasculhando o pântano desde o amanhecer. Estava cheio de criaturas imundas e distorcidas criadas pelos feitiços da Cabala, mas cada uma que cruzava seu caminho aprendia quem era a verdadeira ameaça.
O Homem de Corvo tinha que estar aqui, tinha que saber como Belzenlok conseguira transformar Josu em seu lich. Ela não pensara em mais nada na noite passada, quando o estalajadeiro carregara um Gideon semiconsciente de volta ao quarto deles, e ela usara as ervas que colhera para curar os ferimentos dele. Ela pretendera fazer isso por Josu todos aqueles anos atrás, para torná-lo inteiro, para salvar a vida de seu irmão. Era fácil ver agora que ela fora obstinada e egoísta em relação a isso, ignorando avisos, apressando-se como se os minutos tivessem significado, querendo apenas ter sucesso onde outros falharam e tornar-se a heroína de sua família. Mas era o egoísmo de uma adolescente, um egocentrismo infantil. Ele não merecia isso.
Josu não merecia isso.
E enquanto trabalhava sua cura em Gideon, ela ficara irracionalmente aterrorizada de que acontecesse novamente. De que ela de alguma forma matasse ou transformasse seu único aliado. Mas ela o deixara na estalagem ainda se recuperando, inteiro e dormindo profundamente.
Ela tinha que encontrar o Homem de Corvo. Tinha que encontrar respostas.
Acima das árvores à frente, corvos giravam no ar, então mergulharam para espiralar em um redemoinho escuro logo acima do chão. O bater rápido de suas asas coalesceu em uma massa negra, como se todos tivessem se unido em uma única criatura. Daquela massa surgiu o Homem de Corvo.
Arte de Chris Rahn
Ele parecia o mesmo da última vez que ela o vira, uma figura pálida e alta vestida de preto com cabelo branco como osso e olhos de ouro penetrante. Ele a seguira através de planos, fingindo querer ajudá-la, embora ela não tivesse ideia de qual era seu verdadeiro motivo. Ela exigiu: "Foi você quem fez isto? Você contou a Belzenlok como meu irmão morreu? Como Belzenlok o ergueu novamente?"
"Você já sabe as respostas para estas perguntas, Lili," disse ele, com uma calma enfurecedora.
"É por sua causa." Ela avançou. Havia corvos em toda parte, empoleirados em cada rocha, toco ou galho de árvore apodrecido. Observavam o confronto silenciosamente, imóveis. Ela nunca soubera o que o Homem de Corvo era, ou por que estava tão determinado a interferir em sua vida. Ele poderia ser qualquer coisa, desde um poderoso Planeswalker até um dragão ancião em forma humana. "Você fez isto. Conserte. Deixe Josu descansar."
"Não pode ser feito." Seus olhos dourados a observavam calmamente, como se a dor dela fosse divertida. "Se você sente tanto a falta do seu irmão, deveria ter concordado em me seguir."
A raiva de Liliana acumulou-se em seu peito e, ao seu lado, os espíritos Onakke no Véu de Correntes sussurraram. Ela sibilou: "Com que propósito? O que você quer de mim?" Ele não respondeu, observando-a pensativamente enquanto o vento úmido agitava as penas dos pássaros. "Por que me perseguir de plano em plano? Por que me enganar para tornar meu próprio irmão um morto-vivo quando tudo o que eu queria era ajudar — " Ela sentiu sua voz subir, como se estivesse prestes a quebrar, e parou. Respirou fundo. Não estava vulnerável com emoção, estava enfurecida com o desejo de despedaçar esta criatura, o que quer que fosse. Mas ela não podia se dar ao luz de mostrar qualquer sinal que pudesse ser interpretado como fraqueza.
Ele disse: "Acho que você sabe o porquê."
As palavras caíram no silêncio do pântano. Liliana não quis responder, não pôde responder. Ela sabia? Perguntou: "Você estava tentando acender minha centelha? Por que queria que eu me tornasse uma Planeswalker?"
Os corvos ao redor dele levantaram voo e Liliana lançou-se para frente. "Ah não, você não vai — " Antes que ela pudesse erguer uma mão, os pássaros rodopiaram em movimento e ele e cada corvo à vista desapareceram abruptamente.
Liliana praguejou em fúria frustrada. "Inútil!"
Caminhou pesadamente, enviando cobras e as imundas criaturinhas do Pântano fugindo em terror.
Como ela poderia ajudar Josu? Não era apenas Belzenlok usando seu irmão como servo que irritava cada osso de seu corpo. Era seu próprio trabalho de cura que dera tão terrivelmente errado todos aqueles anos atrás. O Homem de Corvo a manipulara, a enganara para realizar o trabalho, sim, mas fora ela quem o fizera, quem transformara Josu em um resto morto-vivo sem mente. E de alguma forma aquilo deixara os restos dele vulneráveis à magia de Belzenlok, permitindo que Belzenlok o erguesse da sepultura mais uma vez, escravizando-o, mas com sua inteligência e conhecimento militar intactos.
Arte de Daarken
Eu poderia usar o Véu de Correntes, pensou ela subitamente. Agora que Josu fora transformado em um lich, ele o faria descansar exatamente como destruiria um demônio . . . Ela praguejou baixinho ao perceber. Ah, então é isso.
Aquele fora o plano de Belzenlok, seu propósito ao escolher Josu para liderar suas forças em Caligo. Ele sabia que se Liliana usasse o Véu de Correntes para desfazer Josu, isso a deixaria tão fraca que ela não seria capaz de usá-lo para destruir Belzenlok.
Seus lábios curvaram-se em desprezo. O excesso de confiança de Belzenlok era tão descabido quanto o dela fora, naquele dia distante em que Josu morrera. Quando ela o matara. Ela usaria o Véu de Correntes para desfazer seu irmão. Sou Liliana Vess, pensou ela. Se houver uma maneira de matar Belzenlok sem o Véu de Correntes, eu a encontrarei.
Mas primeiro ela tinha que levar Josu de volta à Mansão Vess, de volta ao local onde ele fora transformado em morto-vivo pela primeira vez. Apenas ali o feitiço de desfazimento funcionaria; apenas ali ela poderia deixá-lo descansar.
...
O sol da manhã estava surgindo sobre os telhados remendados da cidade quando ela alcançou a estalagem novamente. Os habitantes estavam na praça, alguns vigiando enquanto outros limpavam as barracas queimadas do mercado. Conforme ela passava, eles assentiam respeitosamente, e alguns dos mais jovens acenavam. Ela encarou, perplexa, e passou por eles para dentro da estalagem.
Encontrou Gideon acordado e no pátio do jardim da estalagem entre canteiros de ervas e vegetais. Ele estava movendo-se lentamente através de formas de ataque com uma espada emprestada, claramente testando o trabalho dela em seu ombro. Ela parou na frente dele, preparada para um confronto, o rosto fixo em um esgar, uma resposta cortante pronta.
Gideon embainhou a espada e a encarou. Disse suavemente: "Notícias?"
"O quê?" Ela franziu o cenho.
A sobrancelha de Gideon arqueou-se. "O estalajadeiro disse que você saíra antes do amanhecer. Pensei que estivesse patrulhando as forças de Belzenlok."
Ela fez um gesto impaciente. "Eu estava procurando informações, sim, mas — " Inspirou bruscamente. Ela esperara que Gideon estivesse pronto para abandonar a causa dela porque Nissa e Chandra o fizeram. Por causa de quem ela era. Mas ele não o fizera, e ela seria tola se não pedisse a ajuda dele.
Caminhando de volta pelo Pântano, ela tentara pensar em uma maneira de explicar o que precisava sem lhe contar a verdade, mas cada história que imaginara era mais ridícula que a anterior. Começou relutantemente: "Tenho um problema . . . mais perto de casa, por assim dizer. Eu lhe disse que morava aqui." Foi inesperadamente difícil forçar as palavras para fora. "O lich liderando as forças da Cabala nesta área é meu irmão, Josu."
Ela não tinha certeza de qual reação esperava. Mas Gideon nada disse. Sua testa franziu-se em consternação e ele sentou-se lentamente em um banco, gesticulando para que ela continuasse. Liliana caminhou pela pedra irregular do pátio e viu-se explicando. "Eu transformei Josu em morto-vivo, muitos anos atrás. Foi um acidente. Eu era jovem, tola, inexperiente. Estava tentando curá-lo e . . . " Fez um gesto brusco. "Aconteceu. Os feitiços, a magia negra, foram parte do que acendeu minha centelha, e transplanei involuntariamente para longe. Não voltei aqui desde então. Ontem, quando fui procurar ervas, encontrei evidências de um poderoso feitiço necromântico na ruína da minha casa de família. Belzenlok deve ter sido capaz de alguma forma de erguer Josu novamente para usar contra mim." Parou e o encarou. "Preciso fazer meu irmão descansar."
Novamente, ela esperava que Gideon partisse. Aquilo não era o que haviam discutido e não serviria ao objetivo deles de destruir Nicol Bolas. No lugar de Gideon, Liliana já teria ido embora. Mas ele assentiu, sua expressão pensativa. "Sim, esse é o nosso próximo passo, obviamente."
"Obviamente?" disse ela, sobressaltada.
"Belzenlok está usando a Cabala para ameaçar toda Dominária. Se pudermos desfazer Josu, não apenas seu irmão estará livre, mas a Cabala perderá a liderança dele no Pântano de Caligo. Isso dará às forças benalitas uma chance de se reagruparem e forçarem Belzenlok e a Cabala para fora de Aerona." Gideon olhou para ela e sorriu sombriamente. "É um bom começo."
Preparada para discutir, para defender seu caso, ela ficou desorientada com a concordância dele. Afastou-se, tentando organizar seus pensamentos, e lembrou que ainda não lhe contara a pior parte. "Vou precisar do Véu de Correntes para desfazer Josu. Depois disso, não terei forças para usá-lo contra Belzenlok."
Gideon considerou aquilo por um momento. "Não há o que fazer. Teremos que pensar em outra maneira de destruir Belzenlok." Deu um leve de dar de ombros. "Nada sobre isto seria simples, ou fácil. Nós dois sabíamos disso."
Liliana comprimiu os lábios. Era estúpido sentir uma irritante onda de emoção. Gideon estava sendo prático. Ela tinha apenas sorte de que temporariamente compartilhavam o mesmo objetivo. Ela disse: "Vou precisar levar Josu de volta à Mansão Vess para desfazê-lo, mas não tenho certeza de como. Ele está liderando as forças da Cabala, cercado por elas."
Gideon levantou-se. "Para isso, acho que sei exatamente o que precisamos fazer."
...
Gideon liderou o caminho para dentro do pântano, usando as direções que recebera do estalajadeiro e dos outros líderes das defesas da cidade. Conforme seguiam o caminho mal discernível entre poças estagnadas e os restos amontoados de árvores apodrecidas, ele disse a Liliana: "Josu e a Cabala derrotaram uma grande força benalita não muito longe daqui há apenas alguns dias. Alguns de seus feridos ainda estão abrigados na cidade, e outros se esconderam em pequenos grupos por toda esta área. Se os reunirmos e fizermos da Mansão Vess nossa base, Josu terá que vir nos atacar lá."
"Seu otimismo é ilimitado," disse Liliana, com um tom de escárnio na voz.
"Consigo notar que você está perturbada," disse ele. "Não está se esforçando muito em seus insultos."
"Não estou perturbada!" Liliana disparou. "Estou . . . tramando. Por que estas pessoas deveriam nos ouvir?"
"Bem, esse é o meu trabalho," disse Gideon.
À frente erguia-se uma plataforma de pedra perfeitamente redonda, cercada por grama alta. Perto dela, três colunas lisas, cada uma com bons dezoito metros de altura, formavam um semicírculo. Eram os restos de uma ruína antiga, um lugar que outrora fora cercado por floresta densa, mas que agora estava exposto e parcialmente afundado no solo pantanoso. Videiras moribundas agarravam-se às partes superiores mas, como as outras estruturas antigas que Gideon vira aqui, a pedra não tinha manchas nem estava desgastada pelo tempo. Empoleirada na coluna central estava a pessoa que Gideon viera ver.
Era um anjo, com pele como bronze polido e cabelo como uma nuvem escura. Suas asas estavam semiestendidas, as penas brancas brilhantes escurecendo para cinza escuro nas pontas. Vestia uma armadura de placas sobre cota de malha e a espada que jazia aos seus pés era quase tão alta quanto Gideon. Ele chamou por ela: "Falará conosco? Gerrel, estalajadeiro da cidade de Vess, nos enviou aqui para encontrá-la."
Por um momento ele pensou que ela não responderia. Então suas asas estenderam-se totalmente e ela levantou-se, descendo da coluna. Pousou levemente, flexionando os joelhos para suportar o peso. Tão perto, ele pôde ver que seu tabardo branco estava manchado de sangue e sua armadura portava os amassados e arranhões de uma batalha recente. Com o rosto inexpressivo, ela disse: "Quem são vocês?"
"Sou Gideon Jura e esta é Liliana." Haviam decidido não contar a ninguém sobre a associação passada de Liliana com Vess. Gideon já tinha o suficiente para lidar. "Sabemos que você é Rael, Anjo de Batalha e Protetora de Caligo. Você liderou as forças benalitas contra a Cabala aqui."
Rael disse categoricamente: "Então você sabe que eu falhei."
"Você perdeu uma batalha," disse-lhe Gideon. "Não significa que falhou."
As sobrancelhas dela ergueram-se, um pouco de vida surgindo em sua expressão. Era irritação, mas ao menos era vida. Com a voz tingida de ironia, ela disse: "Clichês não deterrão a Cabala."
"Sim, ele é muito irritante desse jeito," disse Liliana, cruzando os braços. "Mas estamos aqui para oferecer nossa ajuda."
"Deveriam ter chegado antes." O olhar sombrio de Rael moveu-se de Gideon para Liliana, avaliando-os. "Minhas forças estão dispersas, escondidas. Se eu enfrentar a Cabala novamente, serão destruídas. Deixe que defendam a si mesmos e aos seus o melhor que puderem. Não podemos derrotar a Cabala aqui em batalha aberta."
"Eu entendo, mas não é apenas força das armas que estamos aqui para oferecer," disse Gideon. "Liliana é uma maga poderosa, e destruiu os cavaleiros mortos-vivos que atacaram Vess ontem à noite. Com a sua ajuda, temos uma maneira de derrotar o lich Josu que comanda os restos sombrios aqui."
As sobrancelhas escuras de Rael baixaram-se. "Você sabe o nome do comandante deles?"
Gideon olhou para Liliana, cuja expressão nada revelava. "Não apenas isso, temos uma maneira de deixá-lo descansar."
Rael hesitou, e em sua expressão a esperança lutou com a resignação. Gideon assistiu a esperança vencer. Ela respirou fundo e disse: "Diga-me o seu plano."
...
Enquanto Liliana preparava-se para seu feitiço, Gideon passou o restante do dia com Rael, reunindo as forças benalitas restantes em Caligo. Quando o dia seguinte amanheceu, estavam no terreno alto ao redor da Mansão Vess com uma pequena força de soldados benalitas, cavaleiros e batedores aven.
Arte de Mark Zug
O céu estava pesado de nuvens, ameaçando chuva, conforme Gideon e Liliana se reuniam com Rael e seus tenentes nos restos tomados pelo mato do jardim murado da casa. Olhando ao redor para todos eles, Gideon sabia que precisaria de uma boa estratégia defensiva. Muitos dos soldados e cavaleiros eram feridos ambulantes, muitos estavam desanimados pelas mortes de seus companheiros e pela devastação que a Cabala causara em Caligo. Ele não tinha intenção de deixá-los suportar o peso do ataque.
"Existem outros magos aqui?" Gideon perguntara antes.
"Há o Corin." Rael apontara para um vulto pequeno e pálido parado com os soldados benalitas. "Ele é um mago tolariano."
Corin parecia muito jovem e desanimado, seus robes arrastando-se na grama molhada. Ele tinha algum tipo de manopla de artífice de cristal e metal em um braço, mas não parecia formidável. "Entendo," disse Gideon, e assentiu educadamente, decidindo privadamente tentar bolar um plano que não incluísse magos.
Era verdade que fazer Josu descansar privaria Belzenlok de seu general nesta parte de Benália, mas era também uma parte vital do plano de Gideon para matar Nicol Bolas. Ele não podia deixar que estas pessoas exaustas suportassem o peso de uma batalha para promover seus objetivos, mesmo que esses objetivos fossem em última instância beneficiar o plano deles.
É claro, Gideon estava bem ciente de que suas estratégias defensivas consistiam em grande parte em lançar-se entre o que quer que estivesse atacando e seus companheiros. Ainda era a melhor solução se ele não conseguisse pensar em mais nada.
"Por que estamos nos reunindo aqui?" perguntou Thiago, um cavaleiro benalita que era o segundo em comando de Rael. Ele olhou para o muro de pedra coberto de líquen que se agigantava sobre eles. "Esta casa é amaldiçoada. Não pode ser um bom local para preparar uma batalha contra a Cabala."
"A maldição terminará quando eu desfizer o lich," disse-lhe Liliana. Sua expressão era fria e irônica, como se nada do que discutissem aqui a afetasse pessoalmente, mas Gideon sabia melhor. Ela tentara o seu melhor para manter suas emoções sob controle quando lhe contara sobre Josu, mas ele a conhecia o suficiente para sentir o horror e a consternação reais que ela sentia. Ela poderia ter usado o momento para mentir ou tentar manipulá-lo, mas não o fizera. Aquilo o surpreendera, e o fizera pensar que poderiam realmente ter uma chance de matar Belzenlok e depois Nicol Bolas. Se pudessem realmente trabalhar juntos como aliados, tudo era possível. Ela acrescentou: "O feitiço tem que ser realizado aqui."
O capitão dos soldados perguntou: "O lich foi criado pela maldição de Vess?"
Gideon não fazia ideia. Olhou para Liliana, que disse: "Não importa como foi criado. É aqui que eu o destruirei."
Um aven trouxe um mapa para Rael, e ela o desenrolou sobre uma mesa de pedra. Mostrava o Pântano, a cidade, o rio e toda a área circundante. "O lich tem uma criatura escravizada a ele que usou contra nós em Caligo. É um resto morto-vivo, uma sombra medonha. Existem também várias bruxas da pele nas fileiras do lich."
Gideon assentiu. "Quais são os poderes destas sombras medonhas e bruxas da pele?"
"Não temos inteira certeza." Rael olhou para ele, com a boca em uma linha severa. "Ninguém jamais sobreviveu para nos relatar."
Liliana disse: "Ah, bruxas da pele não são nada de muito incomum. Elas empunham magia da morte, mas estão interessadas principalmente em descascar a pele de suas vítimas." Gideon ergueu as sobrancelhas em interrogação. Liliana esclareceu: "Elas a vestem."
Gideon suspirou. "Claro que sim."
"Você já viu uma bruxa da pele?" Thiago perguntou, incrédulo. Rael olhou Liliana com dúvida.
"Várias." Liliana ajustou uma de suas pulseiras, aparentemente alheia.
Gideon instigou: "E as sombras medonhas?"
Liliana disse: "Agora, essas são mais interessantes. Elas podem mudar de tamanho, então não são apenas capazes de tornar-se extremamente grandes, podem também encolher o suficiente para rastejar para dentro de um cadáver e animá-lo." Ela balançou os dedos. "Como uma marionete."
Gideon manteve sua expressão neutra enquanto os outros encaravam Liliana, perplexos com como ela obtivera aquela informação. Ela olhou ao redor para eles e disse, com a voz seca: "Eu sei de coisas."
Após outro olhar pensativo para Liliana, Rael continuou: "Os batedores aven viram uma sombra medonha vindo da margem do rio, aqui. Ela será seguida por restos sombrios e mortos-vivos sob o controle de seus clérigos. O lich estará em algum lugar por perto, esperando para agir contra nós assim que a sombra medonha e a força com ela atacarem." Ela empertigou-se, sacudindo um pouco as asas. "Isso significa que as bruxas da pele provavelmente não entrarão em campo contra nós hoje. O lich nunca antes as enviou para a batalha ao mesmo tempo."
"Mesmo uma sombra medonha já é ruim o suficiente," Thiago comentou.
O capitão disse: "Há uma primeira vez para tudo; não podemos contar com enfrentar apenas um ou outro."
Gideon não queria que as forças benalitas enfrentassem nenhuma das criaturas do lich. Perguntou a Liliana: "Você poderia controlar uma sombra medonha?"
Liliana franziu o cenho em pensamento. "Controlar, não. Não até que Josu esteja . . . fora do caminho. O que você está pensando?"
Em vez disso, Gideon virou-se para procurar o jovem mago. Ele não queria colocar Corin em perigo, mas a parte dele nesta estratégia deveria ser segura o bastante. "Corin, com a ajuda de Liliana, você conseguiria criar uma ilusão? Fazer uma sombra medonha pensar que sou uma bruxa da pele?"
"Sim, consigo fazer isso!" Corin aproximou-se entre Thiago e o capitão, aparentemente aliviado por ter alguma forma de ajudar. "Sou bom com ilusões."
A boca de Liliana contraiu-se enquanto estudava o mapa. "Ah, vejo o que você está pensando. É uma ideia deliciosa."
...
Rael e os outros partiram para assumirem suas posições, e Gideon perguntou a Liliana: "Você está pronta para isso?"
A expressão dela era de aborrecimento. "Claro que estou. Agora tente permanecer vivo enquanto eu cuido de Josu."
Gideon suspirou e, conforme ela se esgueirava ao redor da casa, ele foi juntar-se a Corin. Haviam feito alguns preparativos rápidos, mas a maior parte do plano dependia dos feitiços de Corin.
Ao entrarem entre as árvores na borda das terras da mansão, Gideon colocou a lança de três pontas da Cabala nas costas. Rael dissera que ela tinha um propósito ritual bem como de arma, o que daria mais verossimilhança ao seu ato. Ele esperava. Se aquilo não funcionasse, ele enfrentaria uma sombra medonha e a principal força da Cabala sozinho. Aquilo seria interessante.
Conforme Corin lançou o feitiço, Gideon sentiu a ilusão assentar sobre ele como um cobertor molhado. Olhou para baixo para si mesmo, mas não conseguiu ver diferença alguma. "Não consigo ver."
"Porque você não foi tocado pela necromancia," Corin explicou. "Tive que modificar a ilusão para que uma sombra medonha seja capaz de vê-la." Ele hesitou ansioso. "Espero que funcione."
"Espero que sim também," Gideon concordou, e desejou que Liliana fosse uma maga tolariana em vez de uma necromante. Mandou Corin juntar-se aos soldados e partiu.
Enquanto Gideon caminhava pela grama alta, sentia-a puxá-lo, como se estivesse vestindo saias longas que arrastavam sobre ela. Uma sensação estranha, mas era a prova de que o feitiço de Corin estava funcionando até certo ponto.
Abrindo caminho através da lama e do matagal denso e fétido, ele seguiu em direção ao rio. Uma vez que emergiu de um bosque de árvores mortas emaranhado de videiras, viu a extensão de terreno plano que levava ao mar de lama que outrora fora o rio. Entre os grupos de árvores apodrecidas, vultos escuros moviam-se resolutos.
Era a força da Cabala, uma legião de mortos-vivos. Cadáveres cambaleantes, os revividos de soldados de infantaria, carregavam armas saqueadas, e cavaleiros mortos-vivos montavam criaturas que outrora foram cavalos. Restos sombrios e clérigos de mantos negros e armaduras negras caminhavam entre eles. E liderando o caminho . . .
Então é assim que uma sombra medonha se parece, pensou Gideon. Como se ele já não tivesse combustível suficiente para seus pesadelos.
Tinha facilmente o dobro da altura de Gideon, uma figura cinza nua até a cintura, seu corpo como um cadáver musculoso e ressecado. Seu peito fora rasgado do colarinho até a cintura, revelando uma cavidade vazia que brilhava com luz espectral, abaixo de um rosto pontudo com uma ampla mandíbula com presas.
Arte de G-host Lee
Gideon respirou fundo e começou a avançar, erguendo as mãos.
A sombra parou, sua cabeça girando de um lado para o outro, como se tentasse vê-lo melhor. Um resto sombrio avançou e gritou: "Bruxa, o que faz aqui? Por que desobedece as ordens de nosso mestre?"
Mova-se rápido e mantenha sua bocarra fechada, Liliana o aconselhara. Você terá muito pouco tempo antes que a ilusão chame a atenção de Josu e ele saberá imediatamente o que é. Gideon avançou, mantendo as mãos erguidas, esperando que sua postura fosse bruxesca o suficiente.
Subitamente na sua frente ele viu as formas de Drasus e Olexo, seus amigos, seus Irregulares do Bairro dos Estrangeiros em Akros, e seu coração gelou no peito. Eram mortos-vivos, seus corpos mutilados, cadáveres sem sangue, trazidos aqui de alguma forma por Belzenlok.
Gideon quase recuou mas se conteve. Não, não é real. Um clérigo da Cabala em algum lugar na força que se aproximava devia estar lançando magia de demência em uma área ampla. As imagens eram apenas pesadelos, extraídos de sua mente subconsciente. O resto sombrio perto da sombra gritou: "Isso não é — "
Gideon lançou-se para frente e atirou a lança direto no buraco escancarado no peito da sombra. Atingiu bem no centro e a sombra cambaleou e rugiu de raiva. Gideon correu e a sombra disparou atrás dele.
Antes de alcançar as árvores, Gideon lançou um olhar para o alto para garantir que o batedor aven voando alto no céu o vira. O batedor sinalizaria para Rael enviar a força benalita contra os restos sombrios que contavam com a sombra medonha para liderar o ataque. O truque com sombras como esta, Liliana lhe dissera, é que elas estão sempre famintas e seus cérebros são como mingau. Antagonize-a o suficiente, e ela o perseguirá não importam quais sejam suas ordens.
Gideon disparou morro abaixo. Esquivou-se por um bosque de árvores encharcado e parou bruscamente. De frente para ele estava uma figura alta parecida com uma megera, envolta nos restos retalhados de peles humanas, com duas outras não muito atrás dela. Bruxas da pele. Então Josu enviara todas as suas armas mais formidáveis atrás deles.
O primeiro pensamento de Gideon foi que deveria desviar e deixar a sombra medonha encontrar as bruxas da pele, pensando que uma delas a atacara. Então viu os rostos das peles amarradas no pescoço da bruxa mais próxima. Seus olhos giravam e lacrimejavam em dor e terror. Alguma magia imunda mantinha suas vítimas vivas. Então Gideon seguiu seu segundo pensamento e, conforme ela ergueu as mãos para lançar um feitiço, ele sacou sua espada e investiu.
A bruxa soprou um hálito e uma nuvem de ar escuro e venenoso fluiu em direção a Gideon. Reagindo instintivamente, ele usou seu feitiço de escudo, a égide eterna, e o ar venenoso fluiu ao redor dele, inofensivo. O primeiro golpe de sua espada arrancou a cabeça dela.
Conforme a cabeça surpresa da bruxa quicava pela grama e seu corpo caía ao chão, a sombra medonha irrompeu do bosque atrás dele. Saltou sobre a primeira bruxa da pele que viu, arrancando-a do chão e prendendo-a contra o buraco em seu peito. A bruxa convulsionou, seu corpo sacudindo conforme encolhia e murchava; a sombra medonha estava bebendo a força vital dela.
A última bruxa gritou em fúria e lançou outra nuvem tóxica contra Gideon. Ele usou seu feitiço de escudo novamente e a apunhalou no estômago, rasgando sua espada para baixo para desenterrá-la enquanto ela lançava mais feitiços. Conforme ela caiu ao chão, Gideon sentiu a ilusão ao seu redor desaparecer.
Ele girou para enfrentar a sombra medonha. Espero que o Corin não esteja morto, pensou. O jovem mago devia ter sido incapacitado para o feitiço de ilusão quebrar daquele jeito.
A sombra medonha encarou Gideon em incompreensão, então rugiu.
O plano não funcionara exatamente como pretendido, mas o objetivo era manter a sombra confusa e longe da força benalita. Não havia motivo para Gideon não continuar a fazer isso. Rugiu de volta para a sombra sobressaltada e investiu.
...
Liliana estava na borda das terras da mansão. Ouvia a luta na distância, viu o aven voando sobre o Pântano. Não muito longe, ouvia Gideon matando algo barulhento e furioso, mas ela não podia dispensar atenção a nada exceto Josu.
Então sentiu algo poderoso se aproximar. Um vento frio soprou sobre o pântano, agitando a grama alta e encrespando as poças lamacentas, quebrando os galhos frágeis das árvores moribundas. Ela rastreou sua fonte, um centro concentrado de poder necromântico atravessado por magia de demência. E uma raiva fria.
Liliana conseguia sentir pedaços de seu irmão naquela raiva, fragmentos de memória e uma presença familiar. Ela sabia que era melhor não esperar falar com o homem que fora seu irmão. O que quer que restasse da verdadeira personalidade de Josu estava enterrado, trancado sob camadas da magia da morte de Belzenlok.
Ela transformou seu surto de emoção em uma lâmina afiada de propósito; o tormento de Josu terminaria hoje e Belzenlok perderia sua ferramenta em Caligo.
Enviou palavras ao vento: Josu Vess, estou aqui. Você me conhece.
A atenção de Josu voltou-se para ela, localizando sua posição. Raiva e descrença fluíram através da conexão deles. A resposta dele veio a ela: Isto é um truque.
Ela deixou o vento ouvir sua risada. Certamente você conhece sua própria irmã.
Um rugido de raiva psíquica a alcançou e ela virou-se, caminhando sobre a terra úmida em direção à mansão.
Parou logo antes dos degraus que subiam ao salão principal e olhou para trás. Josu saíra das sombras das árvores.
Enquanto ele avançava, ela nada conseguia ver de seu rosto. A magia que o transformara de um resto morto-vivo sem mente no general lich de Belzenlok cobrira sua forma com uma armadura de metal escuro. Espinhos afiados sobressaíam de seus ombros e costas, e o pesado elmo ocultava suas feições. Ele parou no centro do monte gramado que fora o pátio frontal da casa. Então é você mesmo, irmã.
Ela respondeu: Gostaria de poder reconheê-lo tão facilmente, irmão. Seu mestre o mudou.
Foi você quem me mudou. A raiva coloria o tom dele e, perversamente, o fazia soar mais como ele mesmo, embora o Josu de que ela se lembrava nunca estivesse verdadeiramente zangado com ela. Você fez isto comigo.
Ela estava certa: seu feitiço de cura corrompido permitira de alguma forma que Belzenlok o erguesse. Você sabe que eu só queria ajudar. Fui enganada, minha magia — Ela se interrompeu. Era uma armadilha, falar com ele naquela forma. Não poderiam falar verdadeiramente até que ela o libertasse daquela maldição. Ela deu o primeiro passo subindo em direção ao salão principal.
Ele investiu atrás dela e ela correu degraus acima, através do chão até o ponto onde Belzenlok realizara seu feitiço. Ela virou-se e Josu estava quase em cima dela, agigantando-se sobre ela, com seu martelo de guerra erguido. Ela apertou o Véu de Correntes.
Os Onakke presos no Véu de Correntes sussurraram em sua mente conforme ela extraiu poder bruto. Estava vagamente consciente dos mortos-vivos por todo o Pântano caindo como pedras conforme o Véu drenava o poder necromântico que os animava. As linhas em seu corpo começaram a queimar, mas ela conseguia ver Josu claramente agora, um vulto menor enterrado na armadura envolvente, o homem que ele fora antes de seus feitiços destruírem a vida dele, antes de Belzenlok transformá-lo. Seu cabelo escuro e pele pálida, traços tão parecidos com os seus próprios. Isso é impossível, percebeu ela. Ele estava usando magia de demência nela, obscurecendo sua visão. Ela tinha que agir agora.
O poder dos Onakke no Véu de Correntes fluiu através dela como uma explosão de fogo.
Desapareceu num instante, levando a força dela consigo. Ela tropeçou, seu corpo subitamente fraco como uma marionete sem cordas. Queria cair no chão, mas desmoronado diante dela sobre as pedras do pavimento estava o cadáver em decomposição de seu irmão. Ele olhava para ela com olhos vazios.
A pálida luz cinza do dia permitia que ela visse os ossos pelas frestas em sua pele ressecada. Atordoada, olhou para cima, percebendo que toda a metade superior do salão principal desaparecera. O poder necromântico de Belzenlok a mantivera intacta e o Véu de Correntes explodira tudo aquilo, envelhecendo a casa até que se tornasse uma ruína desmoronada. Estava incerta de quanto tempo passara, mas através dos buracos escancarados na parede frontal podia ver Rael e seus soldados benalitas reunidos no pátio frontal, e Gideon subindo os degraus cautelosamente.
Ela tremia de exaustão e o sangue corria das linhas de seu pacto. Sabia que a presença de Josu aqui era temporária, apenas os restos dissipantes de sua alma e corpo. Num momento ele se fora, descansando. Sem ter certeza se ele podia ouvi-la ou não, ela disse: "Josu, está tudo bem. Acabou. A maldição da Casa de Vess terminou."
Mas a mandíbula óssea dele caiu e ele sibilou: "Não pode terminar, Liliana. Não enquanto você ainda viver."
O ódio bruto em sua voz a chocou. "O que você quer dizer?"
O que restava de seus lábios formou um esgar. "Você destruiu a Casa de Vess, Liliana."
Ela balançou a cabeça. Ele devia estar confuso, com a memória afetada pelos feitiços de Belzenlok. "Josu, eu não estava aqui — "
"Claro que não estava." A voz de Josu fortaleceu-se, mesmo enquanto seu corpo falhava. "O que você acha que aconteceu depois que você partiu? Eles morreram. Todos eles. Papai tentou me fazer descansar. Eu mesmo o matei. Mamãe levou nossas irmãs embora, procurando uma cura para mim. E procurando por você. Ela achava que você vivia, achava que fora roubada. Seguiu um rumor de magia que poderia me salvar e a jornada a matou. Outros assumiram o fardo, nossas irmãs, nossas primas, tentando me parar, me destruir. Todos eles morreram." Ele estava desvanecendo agora, fragmentos de seu corpo desaparecendo como poeira ao vento. "Você me matou. Você os matou. É você, Liliana. Sempre será você. Você é a maldição da Casa de Vess."
E ele se fora.
Arte de Eric Deschamps
Liliana cambaleou sob o peso das palavras dele. Ele estivera morto-vivo todo este tempo, todos estes anos. O choque gelado a lavou. Era horripilante. E pior ainda, sua família, todos mortos tentando encerrar o mal que ela criara. Foi um acidente, disse a si mesma. Fui enganada. Mas aquilo não importava. O resultado fora o mesmo como se ela tivesse deliberadamente partido para destruir sua família.
Gideon veio em sua direção. Sua expressão era de choque, e ele disse: "Liliana, sinto muito — "
Ele ouviu, ouviu tudo, pensou ela, cambaleando. Mas cerrou a mandíbula e recusou-se a ser humilhada. Quando ele estendeu a mão para o braço dela para estabilizá-la, ela balançou a cabeça e deu um passo atrás. Forçou sua coluna a endireitar-se. Não fraquejaria. Sobrevivera a coisa pior que isso. E Belzenlok pagaria pela sua parte nisso. Pagaria pelo sofrimento de seu irmão. Pagaria pela percepção de que ela causara a destruição de sua família.
Com a voz dura de fúria, ela disse: "Se Belzenlok pensa que isto vai me parar, ele é um tolo. Vou arrombar sua Fortaleza, massacrar seus restos sombrios e destruir seu legado. Não importa o que seja necessário. Se eu devo ser uma maldição, então que eu seja a de Belzenlok!"
28 de Março de 2018 | Por Martha Wells
Retorno a Dominária: Episódio 3
Levou o dia todo e a noite inteira, mas com certeza, como Ziva prometera, na manhã após os tritões começarem, Jhoira estava na margem observando o que restava da grande nau voadora Weatherlight.
Estavam na costa de Bogardan em uma enseada com uma ampla faixa de praia, protegida por afloramentos rochosos em cada lado. Acima das dunas havia uma faixa plana de terreno gramado onde a Weatherlight agora repousava. A certa distância para o interior, picos vulcânicos escuros erguiam-se além de campos de lava ondulantes.
Tudo o que restava era o esqueleto de metal Thran da nau voadora, com quase sessenta metros de comprimento, e as bobinas volumosas de seus motores. O restante de seu casco e interior apodrecera ou fora destruído na batalha que a enviara ao fundo do mar. A coruja mecânica de Jhoira voou sobre ela, dando-lhe uma visão aérea dos destroços através de seus olhos. Parece pior do que é, pensou Jhoira. Tocou o medalhão em seu pescoço, lembrando a si mesma de que tinha opções, caso o núcleo da nave estivesse mais danificado do que esperava.
Arte de Kev Walker
Entre os tritões e sua tripulação de resgate humana, haviam lutado com o resto até a superfície. O navio de suprimentos tolariano onde a nave de mergulho de Jhoira estava agora guardada puxara a Weatherlight para esta enseada abrigada, e então haviam içado e alavancado os destroços até o terreno plano onde o trabalho de restauração poderia começar. O navio de suprimentos estava ancorado fora da praia agora e a tripulação de resgate estava montando um acampamento perto da Weatherlight. Poderiam começar o trabalho já nesta tarde. O outro navio ancorado na enseada era a barca particular de Jhoira e, embora muito menor e com formato de um navio à vela comum, era tanto uma maravilha mecânica quanto sua nave de mergulho.
Agora só preciso de uma tripulação, pensou Jhoira. Sentia falta de Karn, Venser e todos os outros. Ao menos sabia onde Teferi estava, embora não houvesse como saber se ele poderia ser persuadido a ajudar ou não. E há o Jodah. Sua expressão tornou-se irônica. Não sabia se podia contar com ele também. Fazia tanto tempo desde que o feitiço final e poderoso de Urza praticamente encerrara a invasão phyrexiana, e Dominária se curara tanto desde então. Mas algumas coisas nunca curariam.
Não importava. Acontecesse o que acontecesse, Jhoira encontraria um caminho. Sempre encontrara antes, e não esperava que isso mudasse tão cedo. Isto é importante demais, pensou ela.
O vento agitou seu cabelo, e o anjo que a Igreja de Serra lhe enviara pousou na areia. Seu nome era Tiana e, embora parecesse perfeitamente amável, Jhoira detectara um certo ar de tristeza nela. Mas olhando para ela agora, Tiana parecia mais animada. Na verdade, parecia positivamente incandescente. Literalmente incandescente. Curiosa, Jhoira perguntou a ela: "Você pretende brilhar desse jeito? Há algo errado?"
Com expressão arrebatada, Tiana não pareceu ouvir a pergunta. "A forma." Ela gesticulou em direção à espinha nua da Weatherlight. "É a lâmina de Gerrard nos retratos." Ela balançou a cabeça. "Claro! Não sei por que não percebi isso antes."
Estudando-a, Jhoira apontou: "Você não está apenas brilhando, está sorrindo."
Tiana baixou o olhar, subitamente constrangida. "Desculpe pelo brilho. E você já me viu sorrir antes."
"Não assim." Não como alguém que viveu nas trevas vendo o sol pela primeira vez. Havia gravidade naquele sorriso, como se pudesse atrair todos ao seu redor como uma anomalia temporal. Os olhos de Jhoira estreitaram-se em preocupação. "E agora você está chorando."
Tiana esfregou o rosto com sua manga branca. "Não, não é, não estou . . . Há muita areia no ar hoje, estou surpresa que todos não estejam chorando."
Chovera mais cedo e a areia ainda estava úmida, e a brisa não trazia nada além do aroma salgado do oceano. Jhoira estendeu a mão e gentilmente ergueu o queixo de Tiana. Perguntou suavemente: "Por que você está chorando?"
"Eu realmente não sei." Tiana respirou fundo e deu um passo atrás, limpando o rosto. "Parece estar passando agora, seja lá o que for."
Jhoira não estava tão certa. Olhou de Tiana para o casco esquelético de metal erguendo-se sobre elas. Aquilo não podia ser coincidência.
Quando Tiana chegara antes do resgate começar, explicara que era um anjo guardião, mas sem nada em particular para guardar, então estava disponível para os recados de longa distância da igreja. Agora Tiana parecia estar tentando evitar olhar para a nau voadora, como uma amante tímida tentando não revelar o objeto de sua devoção. Tiana tinha que estar reagindo à Weatherlight. Jhoira pensou: Mal restam nada além dos ossos dela, e a velha senhora ainda tem algo nela. "Venha," disse ela. "Vamos dar uma olhada na Pedra de Poder."
...
Hadi e os outros resgatadores juntaram-se a Jhoira e Tiana no esqueleto Thran que era tudo o que restava do casco da Weatherlight. Hadi era o único artífice tolariano, mas os outros eram artesãos e estudiosos qualificados, a maioria de Benália e Jamuraa. Tien, sua metalúrgica chefe, estava ao lado de Hadi, e ela segurava o segundo componente mais importante desta empreitada: uma nova semente de casco que Jhoira obtivera do elemental de árvore Molimo. Ela regeneraria o casco da Weatherlight assim que os artesãos terminassem de limpar os suportes de metal Thran, mas eles ainda tinham que fazer os motores e outros sistemas mecânicos funcionarem. Alguns eram mágicos, outros não e, pelo aspecto deles, todos precisariam de muito trabalho.
Mas o primeiro e mais importante componente repousava aninhado em seu berço de metal nas profundezas do motor. Era a Pedra de Poder.
Pedra de Poder Desgastada | Arte de Henry G. Higginbotham
"Bem, ainda está aqui," disse Hadi em dúvida.
"Isso é um bom sinal," acrescentou Tien, ficando na ponta dos pés para ver o cristal em forma de gota. "Não é?"
Jhoira não estava tão certa. A Pedra de Poder parecia inerte. Fora criada por Urza, que colapsara o Reino de Serra dentro da pedra. O que era a razão de Tiana ter sido enviada para cá; a pedra era um objeto sagrado para a Igreja, então queriam um anjo presente para supervisionar sua recuperação, e para devolvê-la caso não funcionasse mais. Jhoira tinha um plano reserva caso a pedra tivesse sido destruída ou drenada, mas era algo que ela preferia manter em reserva.
Jhoira tinha fé na velha pedra. Talvez ela só precisasse de um pequeno empurrão. "O que você acha?" perguntou a Tiana.
Tiana inclinou-se para frente para estudá-la e franziu o cenho pensativamente. "Está intacta; as conexões no berço parecem boas. O motivador ainda está acoplado. Isso é surpreendente depois do que passou."
Hadi e Tien olharam para ela surpresos. Tien disse: "Eu não achava que anjos estudassem mecânica."
"Não estudamos," disse Tiana apressadamente, recuando do berço como se ele tivesse irrompido em chamas. "Eu não sei realmente nada sobre isso."
"Não sabe?" Jhoira arquejou as sobrancelhas. Esta era a segunda vez que Tiana reagia à Weatherlight como se fosse uma amiga perdida há muito tempo.
Tiana parecia incerta. "Acho que não. Nunca soube nada sobre mecânica antes. Mas . . . parece óbvio agora."
Hadi e Tien a observavam com interesse. Jhoira disse: "Esta é a pedra de Serra. Talvez ela responda a você."
Tiana aproximou-se novamente, mais constrangida do que relutante. "Vou tentar." Examinou a pedra por mais um momento, então uniu as mãos e baixou a cabeça.
Jhoira a observou, ciente de que todos reunidos ao redor haviam parado de respirar. Por um longo momento nada pareceu acontecer, então uma luz interior banhou as feições de Tiana. Jhoira sentiu a mudança na Pedra de Poder, o momento em que ela voltou à vida. Como se alguma entidade poderosa tivesse aparecido entre eles.
Conforme a pedra começou a brilhar, os outros arquejaram e comemoraram. Tiana recuou, com os olhos arregalados. Claramente não estivera esperando um sucesso.
Enquanto os outros celebravam, Jhoira puxou Tiana de lado, sob a sombra das vigas arqueadas da nau voadora. "Perdoe-me, acho que nunca conheci um anjo como você antes."
"Você quer dizer um anjo que carece de confiança em sua natureza angelical?" A expressão de Tiana era irônica. "É uma longa história."
Jhoira tomou sua decisão, parte instinto e parte um cálculo baseado em observação cuidadosa. "Você gostaria de me ajudar mais do que já ajudou?"
Tiana deu de ombros, chutando um tufo de terra. "Claro, não tenho nada melhor para fazer. Quero dizer, bem que posso ajudá-la. Precisa que eu voe para algum lugar?"
"Não, preciso de alguém para supervisionar a reconstrução e proteger os trabalhadores enquanto reúno uma tripulação." Jhoira sorriu conforme Tiana imobilizou-se. "Acha que gostaria disso?"
Tiana virou-se para olhar os motores, os artesãos que já planejavam sua restauração. Não, Jhoira não estivera imaginando; Tiana tinha uma afinidade pela Weatherlight. Soando como se sua garganta tivesse secado, Tiana disse: "Por que eu?"
"Você tem a aptidão, eu vi. E você é um anjo, então sei que posso confiar em você." Jhoira a encarou. "O que você acha?"
Tiana soltou o ar lentamente. "Sim. Acho que sim."
...
Reunir sua tripulação seria uma jornada longa, mas Jhoira planejara e se preparara para isso, exatamente como fizera para a recuperação da Weatherlight.
Deixando o navio de suprimentos para trás, levou sua barca para a costa de Jamuraa primeiro, para a cidade de Suq'Ata, onde investigações prévias sugeriram que poderia encontrar a pessoa que procurava. Algumas buscas a levaram ao mercado gigante da cidade, onde edifícios de vários andares de pedra branca com terraços amplos formavam um cânion artificial de armazéns, lojas, escritórios para agentes de carga e as estalagens e hospedarias necessárias para abrigar, alimentar e entreter as multidões que vinham fazer negócios ali.
Altas palmeiras e arbustos floridos cresciam em grandes vasos, e fontes decoravam cada praça. Papagaios e macacos mecânicos, similares à coruja de Jhoira, guardavam as mercadorias das lojas ao ar livre. Havia pessoas de toda Dominária, mas os locais tinham em sua maioria a pele morena e cabelo escuro do nordeste de Jamuraa, ou a coloração muito mais escura que marcava Femeref e os descendentes da perdida Zhalfir. Era uma tarde quente e muitos dos mercadores, seus clientes e os outros que trabalhavam no mercado haviam parado para tomar chá, figos com mel e tâmaras sob os toldos do lado de fora das várias casas de chá e bares de vinho. Jhoira estava considerando o mesmo, se não conseguisse encontrar seu alvo na próxima hora.
Ela subiu as escadas para uma praça. Água corria por uma série de fontes e cascatas construídas nos muros de um grande complexo de escritórios de carga e armazéns. Pessoas estavam sentadas sob os toldos de uma loja, e entrando e saindo das grandes aberturas em arco nos dois terraços acima deste. Jhoira parou, tentando decidir qual nível procurar primeiro, quando gritos repentinos soaram lá de cima.
Todos na praça e nas lojas ao redor viraram-se para olhar, ou congelaram em choque. Jhoira viu pessoas correndo de um grande arco dois níveis acima e disparou para as escadas.
Alcançou o terraço superior a tempo de amparar um velho que quase tombou pela borda em sua pressa para fugir. "O que aconteceu?" perguntou ela enquanto o estabilizava.
"A Cabala!" arquejou ele. "Um espião da Cabala na tesouraria da Sarin Mercantil!"
Ela o colocou de lado e correu para o arco. Logo dentro, no grande pátio aberto de um armazém de carga, dois jamuraanos jaziam estatelados no pavimento. Pelo grito alarmado e pela direção para onde os outros no pátio corriam, a luta estava acontecendo no telhado do armazém. Jhoira tocou a coruja mecânica empoleirada em seu ombro e sussurrou: "Seja meus olhos."
Ela piou e disparou direto para o ar para circular acima do armazém.
Jhoira dividiu sua atenção entre o pátio e a visão de seu familiar. Havia um terraço no topo do telhado do armazém, observado por um edifício mais alto com sacadas. No plano de pedra plano do terraço, uma mulher com uma espada lutava contra meia dúzia de homens vestindo os mantos encobridores de nômades do deserto. Ao redor deles, magia negra com um toque demoníaco pairava no ar como uma névoa. A espadachim tinha pele escura e cabelo escuro em uma coroa de tranças, e vestia armadura de metal e couro. A lâmina da mulher desviou um golpe de lança, e ela usou seu ímpeto para girar e arrancar um pedaço do pescoço de seu oponente. Conforme ele desabou, ela gritou para os outros: "Já terminaram?"
Um homem uivou de fúria, seu capuz caindo para revelar pele pálida e uma cabeça raspada marcada com cicatrizes vívidas. Um clérigo da Cabala, Jhoira pensou. Ele usava magia de demência, criando fantasmas que faziam todos os outros ao alcance correrem por suas vidas, mas claramente não estava afetando a mulher.
Ela despachou outro cultista com uma estocada no peito e o clérigo lançou um feitiço de morte contra ela que se manifestou como uma orbe negra. Atingiu o peito dela, mas a mulher ignorou.
O olhar da coruja focou e, conforme o clérigo lançou outra explosão de morte, Jhoira avistou a tênue luz dourada que brilhou ao redor da mulher conforme o feitiço a atingiu. Não é um escudo, pensou ela, começando a sorrir. Era uma imunidade à magia, e ela já vira aquilo antes.
Arte de Magali Villeneuve
Jhoira encontrara seu alvo. Chamou sua coruja de volta e dirigiu-se à escadaria.
Chegou ao terraço a tempo de ver a mulher enterrar sua espada no peito do último cultista. Enquanto ela limpava a lâmina no manto dele, vários guardas da cidade saíram correndo do arco mais próximo. "Shanna Sisay!" um chamou por ela. "O que aconteceu aqui?"
"O que parece?" a mulher, Shanna, respondeu. "Agentes da Cabala, tentando conseguir os mapas de rotas dos mercadores, para que a Cabala possa atacar seus navios e caravanas. As pessoas esquecem que eles começaram como ladrões comuns em Otária," acrescentou ela conforme Jhoira se aproximava.
"Eles esquecem mesmo," Jhoira concordou. "O demônio Belzenlok quer reescrever a história do mundo, consigo mesmo como a força por trás de cada ato de trevas, voltando até a queda dos Dragões Primevos há vinte mil anos."
Shanna embainhou sua espada. "Você conhece a sua história."
Jhoira conhecia sua história, tendo causado uma grande parte dela ela mesma. "E você é imune à magia. O feitiço de demência do clérigo não teve efeito em você."
Shanna deu de ombros, observando-a pensativamente. "É um traço de família."
"Eu sei. Conheci sua ancestral, a Capitã Sisay. Vejo que você carrega a espada dela."
Shanna imobilizou-se, encarando-a. Todo o som e movimento dos guardas e da crescente multidão de espectadores nos arcos e sacadas subitamente pareceu distante. Eram apenas ela e Jhoira neste momento, um encontro que seria registrado na verdadeira história desta era. Shanna perguntou suavemente: "Quem é você?"
Ela sorriu. "Sou Jhoira. Vim aqui para encontrá-la."
...
Retiraram-se para um bar de vinhos em um nível inferior e sentaram-se nos tapetes sob um dos toldos. A atividade nas ruas e praças retornou lentamente ao normal ao redor delas.
Shanna perguntou: "Como você me encontrou?"
"Mantive rastro de sua família, e um de seus primos me disse que você estava aqui nesta cidade, seguindo rumores de espiões da Cabala." Jhoira sorveu seu vinho. "Disseram que sentem sua falta."
Shanna colocou sua taça de lado. "Sinto falta deles. Mas por toda a vida ouvi sobre meus ancestrais e contos da perdida Zhalfir. Cansei de viver sob as sombras do passado. Decidi fazer uso da minha herança." Ela sorriu. "Tenho tantas perguntas."
Se Shanna concordasse, teriam muito tempo para discutir o passado. Jhoira disse: "E eu tenho respostas, mas ouça minha pergunta primeiro: Você consideraria servir na Weatherlight?"
Shanna riu. "Se ela ainda existisse, eu consideraria." Então, ao absorver a expressão de Jhoira, seu rosto tornou-se sério. "Eu consideraria uma honra, seguir os passos de minha ancestral. Servir como ela serviu. Se a Weatherlight existisse."
Jhoira ergueu sua taça. "Então eu consideraria uma honra ter você em minha tripulação."
...
Quando navegaram na barca para Aerona e alcançaram a Cidade de Benália, Jhoira estava ainda mais certa de ter feito a escolha certa. Shanna não era Sisay renascida, mas era parecida o suficiente para que às vezes fosse quase doloroso para Jhoira. Passavam longas noites no convés sob as estrelas, conversando, e aquilo trazia de volta memórias enterradas. Jhoira estava feliz por ter Shanna com ela, mas aquilo a fazia sentir ainda mais falta de Sisay.
Ela esperava o mesmo sucesso com Danitha Capashen, que era distantemente aparentada com o Capitão Gerrard, mas a resposta de Danitha foi curta e final.
"Não," disse ela.
Estavam sentadas no jardim da casa urbana dos Capashen, e era final de manhã em um belo dia quente. Pássaros cantavam nas árvores e os muros de pedra cinza protegiam o jardim da agitação da cidade. "Não?" Jhoira repetiu. Olhou para Shanna, que erguera as sobrancelhas em surpresa desolada. Voltou-se para Danitha, cuja expressão era tão calma e impassível como se estivessem discutindo suas preferências para o almoço. "Você acha que estou mentindo sobre quem sou?"
"Não, sei que você é Jhoira," disse Danitha, ainda calma. Assentiu para Shanna. "E você é tão parecida com os retratos que vi da Capitã Sisay original que eu não poderia possivelmente negar quem vocês são."
Danitha não se parecia com Gerrard, exceto em seu porte de guerreira. Seu cabelo estava puxado para trás, as laterais raspadas para melhor caber sob um elmo, e seu rosto estava bronzeado e curtido pelo tempo. Jhoira sabia que ela era uma cavaleira de Benália, mas pensara que Danitha iria querer seguir os passos de seu famoso predecessor.
Arte de Chris Rallis
"Então por quê?" Shanna perguntou. Gesticulou para a grande casa de pedra. Danitha viera dos estábulos para encontrá-las, e sua espada e escudo repousavam logo dentro das portas duplas que estavam abertas para o salão principal. "Obviamente você não tem medo de uma luta."
"Sou uma cavaleira de Benália," disse-lhe Danitha. "Jurei defender esta terra."
Jhoira dependera de ter parentes dos dois capitães mais famosos da Weatherlight a bordo. Parecera a melhor maneira de começar as novas viagens e, após conhecer Shanna, estava certa de que tinha razão. Precisava de um Capashen. "A Weatherlight sempre esteve no centro da batalha, e é hora de usá-la para lutar contra a Cabala, para quebrar o domínio deles sobre Dominária. Servir conosco só pode ajudar Benália."
"A longo prazo," concordou Danitha, ainda sem exaltação. Falava como alguém absolutamente certa de sua própria mente, o que apenas fazia Jhoira querê-la na tripulação ainda mais. "A Cabala está atacando cidades e vilas periféricas por toda parte ao nosso redor. Se eu fosse com vocês, poderíamos estar lutando contra a Cabala do outro lado do mundo. Quero lutar contra eles aqui, no meu lar."
"I entendo." Jhoira recostou-se em sua cadeira e soltou o ar em resignação. Não posso argumentar contra isso, pensou ela. Olhou para Shanna, que fez um pequeno gesto de derrota.
Danitha assentiu e levantou-se. "Preciso retornar ao meu comando. Fiquem aqui o quanto desejarem; ambas são sempre bem-vindas."
Enquanto Danitha caminhava para dentro da casa, Shanna disse: "E então? O que vem agora? Existe mais alguém que você tenha em mente?"
"Não." Jhoira quis bater na mesa em frustração, mas não o fez. Danitha tinha todo o direito de recusar. "Ela era a única outra que eu esperava — "
Um jovem saiu aos trancos da casa, encarou-as com olhos arregalados e apressou-se até a mesa. Arquejou: "E quanto a mim?"
Jhoira já estava de pé, Shanna ao seu lado, mas percebeu que era improvável que estivessem prestes a serem atacadas. Era um jovem com cabelo castanho rebelde que guardava uma forte semelhança com Danitha. "E quanto a você?" Shanna exigiu.
Ele explicou: "Sou um Capashen. Sou o Raff. Ouvi tudo. Quero ir no lugar da minha irmã."
Jhoira cruzou os braços. Aquilo ela não esperava. "Quer mesmo?"
Shanna o estudou, franzindo o cenho. "Quantos anos você tem?"
Ele empertigou-se. "Tenho idade suficiente para ser um mago treinado. Passei em cada exame anos antes do tempo e assombrei meus professores com minhas habilidades."
"Então estão treinando magos aos doze anos agora?" Shanna perguntou ceticamente. "Ou treze?"
Raff ergueu o queixo. "O próprio Jodah de Tolária disse que eu era um dos alunos mais talentosos que ele já vira."
Até este ponto, Jhoira estivera um pouco divertida, mas ali ela traçou o limite. "Jodah não disse isso."
Raff tentou sustentar o blefe, mas uma linha de preocupação apareceu entre suas sobrancelhas. "Ah, você conhece o Jodah?"
"Sim." Jhoira cruzou os braços. "Desde antes da invasão phyrexiana."
"Ah. Minha irmã disse que você era aquela Jhoira, mas — " Raff visivelmente murchou. "Tudo bem, o Jodah não disse isso, mas ainda sou um mago incrivelmente talentoso."
Jhoira balançou a cabeça e virou-se para partir. Mas conforme ela e Shanna moviam-se em direção à casa, Jhoira sentiu magia.
Raff teve sorte de ela perceber que era uma ilusão, não um ataque. O jardim desaparecera e ela e Shanna estavam subitamente paradas no alto, com nuvens ao seu redor. Na distância, a versão original da Weatherlight inclinava-se pelo céu. As linhas de seu mastro e casco não eram totalmente precisas, mas era um esforço digno de crédito. Lembrando da habilidade de Shanna, perguntou: "Você consegue ver isto?"
"Consigo notar que está ali, mas consigo ver a casa e o jardim através disso." Shanna deu um olhar pensativo a Raff. "Então, ele é bom?"
Arte de John Stanko
Jhoira suspirou e obrigou-se a avaliar a habilidade de Raff mais objetivamente. "Ele não é ruim." Voltou-se para Raff. "Você foi muito irritante hoje."
A ilusão desapareceu com um gesto. Raff disse fervorosamente: "Não serei mais irritante, serei útil. E sinto muito por ter mentido, eu só quero muito, muito ir com vocês."
Franzindo o cenho, Jhoira o considerou. O problema era que Danitha obviamente não tinha intenção de mudar de ideia, o que deixava Raff como a única opção. "Dê-nos um momento," disse ela, e afastou-se com Shanna. Foram para longe, sob o salgueiro perto do terraço. "O que você acha?" perguntou ela, mantendo a voz baixa.
Shanna disse honestamente: "Acho que tenho cicatrizes mais velhas que essa criança."
"Verdade," admitiu Jhoira. "Mas você se oporia a servir com ele?"
Shanna considerou seriamente, com a testa franzida. "Não. Ele é ansioso o bastante e seu coração certamente está nisso, e ele parece ter as habilidades. Eu só . . . Isto será perigoso e não tenho certeza se ele entende isso."
Jhoira não tinha certeza se algum deles entendia o que estavam enfrentando. Vivera tanto, e vira tanto, que era difícil para ela imaginar que alguém tão jovem quanto Raff tivesse qualquer conceito de sua própria mortalidade. Mas ter um Capashen na tripulação parecia certo. Parecia necessário. "Não há segurança enquanto a Cabala existir. Ele poderia muito bem morrer aqui lutando contra eles."
"É verdade." Shanna deu de ombros. "Fico feliz em servir com ele se você acha que ele será útil."
Jhoira assentiu e voltou-se para Raff. Disse-lhe: "Se você quer vir, arrume as malas depressa. Temos um longo caminho a percorrer."
...
Era manhã quando a barca navegou para a enseada de Bogardan. Jhoira estava no convés com Shanna e Raff, usando um telescópio para observar impacientemente a linha da costa. Agora ela baixou a luneta, capaz de ver com seus próprios olhos a forma familiar erguendo-se sobre as dunas.
O casco era graciosamente curvado, o mastro de popa inclinado para trás. Os corrimãos e o vidro das aberturas brilhavam intensamente. Pela maneira ereta como o navio repousava no chão, ele já devia estar parcialmente desperto e sustentando-se. A Weatherlight estava inteira e pronta para o lançamento.
Jhoira abriu um sorriso largo de deleite. Tudo se encaixara exatamente como ela planejara, e bem na hora.
O acampamento fora desmontado, e os trabalhadores estavam usando os pequenos barcos a remo para carregar o último de suas ferramentas e equipamentos a bordo do navio de suprimentos. Acenaram e aclamaram conforme a barca se aproximava da margem.
Shanna estendeu o braço e envolveu Jhoira em um abraço lateral. "Não consigo acreditar!"
Raff tentava não saltitar de excitação. "Há um anjo! É a Tiana? Por que ela tem um vampiro com ela?"
Jhoira e Shanna viraram-se para encarar os vultos esperando na praia. "Um o quê?" disse Jhoira, perplexa. Seu plano não incluíra aquilo.
...
Conforme caminhavam pelas ondas até a areia plana, Tiana e o vampiro vieram encontrá-las.
Jhoira disse: "Olá, Tiana. Presumo que tudo tenha corrido bem. Assentiu para o vampiro, que era claramente um vampiro, exceto por estar vestido como um cavaleiro de Benália e ninguém parecer estar cauteloso com ele. "Existe algo que você queira me dizer?"
Tiana encolheu as asas e coçou a cabeça. "Bem, sim. Este é o Arvad."
Arvad caiu de joelhos e ofereceu a Jhoira o pomo de sua espada. "Juro servir ao seu lado, Capitã Jhoira." Parecia perfeitamente sincero.
As sobrancelhas de Jhoira uniram-se. "Entendo." Olhou para Tiana.
Tiana disse: "É uma longa história."
"Não tenho certeza se temos tempo para ela agora." Jhoira puxou seu relógio de bolso do colete. "Estou esperando um — "
Com um ímpeto de vento e luz dourada, Ajani Juba de Ouro apareceu na margem. Ele olhou para a Weatherlight com uma expressão satisfeita.
" — um amigo chegar." Jhoira sorriu. "Agora estamos prontos."
Ajani, Protetor Valente | Arte de Anna Steinbauer
04 de Abril de 2018 | Por Martha Wells
Retorno a Dominária: Episódio 4
O primeiro pensamento consciente de Tiana veio enquanto ela estava na Catedral de Serra, banhada pela luz do sol fragmentada em mil formas e cores pelos vitrais em arco no alto. Estava cercada por outros anjos em armaduras reluzentes, e por clérigos humanos e aven, seus robes brancos brasonados com penas cinzas para imitar as asas dos anjos. Ela sabia que fora criada para algum propósito magnífico; aquilo aquecia seu coração, zumbia através de suas veias, até que seu novo corpo brilhou como o sol. Foi um momento glorioso.
Então tudo começou a desandar.
Lyra, Portadora da Alvorada, deu um passo à frente, tão bela quanto o nascer do sol, sua pele de bronze escuro brilhando na luz e sua juba de cabelo escuro fluindo sobre a perfeição gélida de suas asas. Ela disse: "Você é Tiana, e nasceu em resposta às preces de mortais, para um propósito."
Arte de Chris Rahn
"Para a batalha," disse Tiana. "Para destruir as forças das trevas." Aquele tinha que ser seu propósito. Certamente nada exceto a guerra poderia arder nela dessa forma.
Houve uma leve agitação dos outros anjos, e dois trocaram um olhar. A fronte perfeita de Lyra franziu-se apenas um pouco, e ela disse: "Não, não para a batalha."
"Não para a batalha?" Tiana não queria questionar Lyra. Ela nascera sabendo que Lyra era um dos anjos que viera para Dominária vindo do Reino de Serra, que Lyra era o mais próximo que qualquer anjo jamais chegaria da abençoada Serra, perdida quando se sacrificara para curar Benália. Mas Tiana sentia que houvera algum tipo de erro. "Temos certeza disso?"
A expressão de Lyra ainda era confiante. "Temos certeza. Você não é um anjo de batalha. Você é a resposta às preces de mortais que precisam de um guardião."
"Um guardião," repetiu Tiana, tranquilizada. Guardiões tinham que lutar para proteger o que quer que estivessem guardando, obviamente, então era na verdade apenas uma leve variação de ser um anjo de batalha. "Dedicarei minha vida e alma a guardar — " Ela percebeu que em seu alívio se precipitara um pouco. "O que estou guardando?" Esperava que fosse algo grande.
Lyra pode ter hesitado — era difícil dizer. Mas sua voz tinha a mesma serenidade confiante ao dizer: "Um sistema de irrigação muito complicado."
Tiana não podia ter ouvido direito. Talvez algo tivesse dado errado quando fora criada e as palavras não significassem o que pareciam significar. "Um complicado . . . o quê?"
"É muito importante," assegurou-lhe Lyra. "Tem um sistema intrincado de elevadores e motores que levam a água do reservatório encosta acima de um platô até a cidade construída em seu topo. Centenas de mortais dependem dele. Chamam-no de a Grande Máquina." O olhar de Lyra era tão sério. "Eles rezaram por um protetor para ela. Rezaram por você."
Tiana deixou seu desapontamento de lado. Um sistema de irrigação poderia soar como uma coisa estranha, e potencialmente extremamente chata, de se proteger, mas esta Grande Máquina era obviamente muito importante para os mortais que rezaram por ela. Por causa disso, provavelmente seria muito atacada e ela teria toda a batalha que pudesse aguentar. Os mortais se tornariam seus amigos, e ficariam felizes por terem recebido um anjo guardião tão exemplar por suas preces. Ela disse: "Eu a guardarei até o último suspiro em meu corpo."
O sorriso de Lyra a aqueceu, e os outros anjos ergueram suas armas em aprovação. Lyra disse: "Excelente."
Os outros anjos levaram Tiana para fora da catedral, e eles voaram em direção a um céu dolorosamente azul pontilhado de nuvens brancas. Edifícios flutuavam no air, todos com telhados de torres redondas e arcos altos e elegantes, as cores brilhantes dos vitrais brilhando na luz do sol. Abaixo havia colinas verdes ondulantes e bosques de árvores altas, e Tiana ouvia o canto distante de pássaros. O vento era fresco e doce. Tiana sabia que nem todo o mundo era belo, mas nesta primeira manhã de sua vida parecia que era.
Arte de Dimitar
Levaram-na para dentro de um edifício flutuante e a deixaram em uma sala ensolarada, onde clérigos humanos a ajudaram a vestir roupas brancas e cinzas enquanto os aven voavam para trazer armaduras e armas para ela escolher. "É uma coisa muito boa você estar finalmente aqui," sua nova amiga, a clériga Afra, disse-lhe. "Ouvi dizer que estas pessoas têm rezado muito, há algum tempo. A comandante ficou muito satisfeita em saber que você estava finalmente vindo à existência."
"Pergunto-me por que levei tanto tempo," disse Tiana, enquanto Afra lhe mostrava como amarrar os cadarços. "Isso acontece muito?"
"Ah, tenho certeza de que sim. Tenho certeza de que deve ter acontecido antes." Afra olhou para os outros clérigos.
Um disse: "Foi muito estranho. Não consigo lembrar de ter levado tanto tempo para uma prece por um anjo guardião ser respondida."
"Talvez porque fosse um pedido incomum," disse outra pessoa. "Um anjo guardião para um sistema de irrigação? Isso é tão . . . específico. As pessoas rezam por anjos guardiões o tempo todo, mas nunca por algo assim — "
Afra franziu o cenho para ele. "Sim, o tempo todo, por isso provavelmente levou tanto tempo. A Abençoada Serra só pode nos enviar tantos guardiões de cada vez."
Houve algum murmúrio dos outros, que Afra silenciou, mas a atenção de Tiana foi capturada por um dos retratos no alto da parede. O conhecimento com que nascera dizia-lhe que o homem com cabelo castanho e cavanhaque, vestido como um homem de armas benalita, era uma representação do mártir Gerrard. Suas sobrancelhas uniram-se ao estudar a lança que ele segurava. A lâmina apontada para baixo tinha uma forma estranha, quase plana em um lado, com uma curva denteada no outro e uma travessa em um ângulo que de alguma forma sugeria voo. Parecia familiar para ela, mas ela não conseguia identificar como. "A lança dele — de onde é?" perguntou ela.
Mas então os clérigos aven voaram de volta para a sacada com sua nova armadura e armas, e na excitação, Tiana esqueceu sua pergunta. Embora a resposta viesse a ela com o tempo.
...
Logo chegou a hora de voar para a cidade da Grande Máquina que Tiana fora criada para proteger. Uma escolta de anjos a acompanharia, liderada pela própria Lyra, Portadora da Alvorada. Tiana seguiu Afra até o amplo terraço aberto onde os outros anjos se reuniam. Sussurrou para ela: "Isto é normal? Todos ganham uma escolta?"
"Não exatamente," admitiu Afra. "Mas estes habitantes da cidade esperaram tanto, e sua Grande Máquina é tão importante para eles, que a Comandante Lyra quer levá-la lá pessoalmente."
Aquilo fazia sentido. Tiana acrescentou: "E ela quer ter certeza de que não há nada de errado comigo, porque levei tanto tempo."
Afra fez uma careta. "Sim, provavelmente isso. Mas não se preocupe, não há nada de errado. A Santa Serra não comete erros."
Tiana abraçou Afra para despedir-se e foi juntar-se aos outros.
O primeiro voo real de Tiana foi maravilhoso, e ela brincou com o vento contra as asas enquanto seguia os outros anjos. Voaram por colinas pontilhadas de pequenas cidades e vilas, e então sobre florestas densas, e finalmente sobre amplas planícies gramadas. Tiana avistou uma estrada bem gasta serpenteando abaixo deles e soube que estavam chegando perto. Seu coração batia forte de excitação. Estava prestes a ver a razão de seu nascimento. Que não era lutar ao lado de Lyra, Portadora da Alvorada, e dos outros anjos de batalha para destruir as forças das trevas, mas proteger uma grande e complicada máquina. Mas é uma máquina importante, disse a si mesma. E tenho certeza de que será muito atacada.
Acontece que ela estava certa sobre essa parte.
Ao se aproximarem do platô, uma névoa de fumaça pairava sobre ele. A princípio Tiana pensou que aquilo fosse normal; as outras cidades humanas sobre as quais voaram não tinham tanta fumaça, mas talvez fosse um subproduto da Grande Máquina. Mas o súbito senso de agitação dos outros anjos a avisou que algo não estava certo.
Voaram mais perto, e foi então que ela viu que a cidade estava em ruínas. Fora atacada e queimada, talvez há apenas alguns dias. Os edifícios eram ruínas fumegantes de pedra e madeira tombadas, e os mortos jaziam nas ruas. Circularam o platô e Tiana viu o que restava da Grande Máquina. As plataformas de madeira estavam carbonizadas e o vidro quebrado, as pesadas correntes despedaçadas, tubos de metal e engrenagens retorcidos e tortos. Fora enorme, e subira por toda a lateral do platô vinda dos reservatórios e canais que trazia água do rio distante.
Tiana estava atônita demais para sentir qualquer coisa a princípio, exceto um peso na garganta, como se algo estivesse tentando sufocá-la por dentro. Pousaram no que restava da praça da cidade para ajudar os sobreviventes, e Lyra disse sombriamente: "Isto é obra da Cabala."
Então as forças das trevas haviam chegado ao lugar que Tiana nascera para vigiar, mas ela chegara tarde demais para combatê-las.
...
Tiana teve que encolher as asas firmemente para sair de baixo do escudo do motor. "Diga à Tien que ela não estava errada. Era um conector ruim com uma obstrução em um dos controladores de fluxo de mana."
Arte de Eric Deschamps
Hadi lhe deu uma mão para subir. Apesar dos aventais de couro protetores que vestiam sobre suas roupas, ambos estavam cobertos de graxa e dos restos da lama do fundo do mar que ainda estavam limpando dos sistemas mecânicos da Weatherlight. Hadi disse: "É um alívio ouvir isso. Eu odiaria ter que refazer toda aquela tubulação."
Subiram as escadas até o convés, e Tiana sacudiu as asas cãibras e caminhou até a amurada. A semente de Molimo quase terminara de regenerar o casco da Weatherlight e seus conveses internos, o que era bom e ruim. Bom porque lhes dava onde ficar e protegia seus esforços de reconstrução do clima. Ruim porque tornava os motores e outros sistemas mais difíceis de alcançar. Tiana certamente faria diferente se algum dia fosse chamada para supervisionar a reconstrução de uma lendária nau voadora novamente.
O acampamento se expandira desde que Jhoira partira, com mais tendas e alguns galpões de madeira construídos às pressas para abrigar a equipe de trabalho e proteger seu equipamento. Também haviam construído um andaime elaborado para sustentar a Weatherlight aterrada e fornecer acesso fácil para os trabalhadores. O sol estava se pondo além das colinas rochosas que protegiam sua enseada e brilhando nas ondas, e pela luz minguante sabiam que já passara da hora de parar pelo dia. A brisa fresca já trazia o cheiro de pão frito e cebolas da vala de cozinha e de sua cozinha improvisada. Aquilo fazia Tiana lamentar um pouco que anjos não precisassem comer. Ela disse: "Refazer a tubulação não teria sido um desastre, no entanto. Ainda estamos adiantados em relação ao cronograma."
"Estamos," Hadi concordou, guardando suas ferramentas em uma mochila de couro. "E isso se deve a você."
Sorrindo, Tiana olhou para lui. "Ah, sou uma supervisora severa?" Ela achava que seu progresso rápido se devia mais ao calibre da equipe que Jhoira contratara.
"Você sabe o que está fazendo e gosta do trabalho. Isso é o melhor que podemos pedir," Hadi disse. Ele parou, uma mão no corrimão do andaime. "Admito, fiquei surpreso. Não esperava que um anjo soubesse tanto sobre motores de artefato. Achei que você seria mais . . . "
"Inútil?" Tiana sugeriu. A essa altura já conhecia Hadi o suficiente para provocá-lo. Uma vez que se passara horas intermináveis espremidos em vários espaços pequenos reconstruindo o trem de força de uma nau voadora mágica juntos, havia poucas coisas que não podiam dizer um ao outro. E Tiana também estava surpresa; sabia que seu conhecimento vinha de Serra, detalhes sobre os sistemas mecânicos da Weatherlight despejando-se em sua cabeça sempre que precisava deles. Estava acontecendo desde que trouxera a Pedra de Poder de volta à vida. Mas ela sabia que não era uma coisa normal acontecer com um anjo. Especialmente um anjo guardião cuja razão de existência fora destruída.
Ela nem sequer quisera a missão de vigiar o renascimento da Pedra de Poder da Weatherlight. Fora escolhida para ela porque fora criada para proteger uma máquina e a Weatherlight era uma máquina e esta fora a única coisa que a Igreja de Serra pôde pensar para fazer com ela. Nunca esperara sentir-se assim em relação ao resto esquelético de uma nau voadora, não importava quão lendária fosse sua reputação.
"Distante," Hadi corrigiu com um sorriso. "Com a mente em coisas elevadas."
"Naus voadoras são coisas bastante elevadas," Tiana comentou. "Ao menos uma vez que fizermos aquele motivador funcionar."
...
Sempre postavam sentinelas, e dobravam seu número durante a noite. Tiana patrulhava o air em intervalos, circulando sobre seu navio de suprimentos ancorado e ao redor do acampamento. Até agora tivera que afugentar um kavu, com a língua em chamas, e desencorajar violentamente um pequeno grupo de caça de goblins, mas nada muito extenuante. Proteger a equipe de trabalho de danos era o trabalho que ela deveria estar fazendo como um anjo guardião, não ajudando Hadi e Tien e os outros a consertarem os motores. Mas, terminar a Weatherlight mais rapidamente significava que a equipe de trabalho poderia deixar Bogardan mais cedo, e ir para algum lugar mais seguro, o que tecnicamente caía na categoria de guardá-los. Ao menos era assim que Tiana estava justificando aquilo, e era ela quem fora deixada no comando.
E se Serra não quisesse que ela o fizesse, não estaria enviando este novo conhecimento. Tiana amava mexer nos sistemas mecânicos da nau voadora, amava descobrir as coisas e consertá-las. Ela achava que talvez amasse a Weatherlight.
Passava bem da meia-noite e Tiana estava fazendo uma pausa, empoleirada no andaime para contemplar as ondas rolando na praia e as estrelas, quando ouviu alguém correr em direção à Weatherlight. Ela rolou para fora da plataforma e desceu ao chão conforme Farim, o jovem primo de Hadi, correu para a luz das tochas. "O que foi?" Tiana disse, mantendo a voz baixa.
Farim relatou sem fôlego: "Mari avistou alguém vindo. Um homem, caminhando pelos prados em direção ao acampamento."
"Certo. Avise os outros," Tiana ordenou, e saltou para o ar. Esta parte de Bogardan era em grande parte inabitada, mas havia enclaves piratas e caçadores, e outros aqui que poderiam ter tido notícia da existência do acampamento. Um homem se aproximando à noite poderia ser qualquer coisa, desde um viajante perdido até um espião de uma força da Cabala.
Ela deslizou lateralmente pelo vento, inclinou as asas e pousou atrás do outeiro onde ficava o posto de sentinela de Mari. Mari, como toda a equipe de trabalho, estava agora acostumada a um anjo despencando abruptamente do céu, então não estremeceu quando Tiana apareceu ao seu lado. Ela estava agachada atrás de uma tela de mato, e entregou a Tiana uma das lunetas de Hadi. Era um tubo de metal cinzelado como um telescópio normal, exceto que permitia ao observador ver no escuro. A visão noturna de Tiana era muito melhor que a de um humano, mas ela pegou a luneta de qualquer forma, já que a magia em sua construção tendia a fornecer uma visão muito mais clara de qualquer coisa que se estivesse olhando. Mari sussurrou: "Acho que ele está sozinho."
Tiana focou no homem que se aproximava. "Parece que sim." Não conseguiu detectar nenhum outro movimento. Ele se movia como um humano cansado, com uma mochila pendurada no ombro, mas havia algo estranho lui. Devolveu a luneta para Mari e levantou-se.
Impulsionou-se para o ar novamente e circulou alto sobre os prados. Não havia movimento daqui até as ondas negras congeladas dos campos de lava, nenhum sinal de mais ninguém se aproximando. O homem a avistara e parara, espiando-a no escuro. Ou ele ouvira suas asas, o que parecia improvável, ou sua visão noturna era ao menos tão boa quanto a dela. Hmm, pensou Tiana. Planou para baixo e pousou não muito longe lui.
Estava vestido como um cavaleiro benalita, com uma inserção distinta de vitral no centro da armadura do peito e no pomo da espada pendurada nas costas. Claramente estivera viajando por algum tempo, pelo estado de suas roupas e pela bainha lamacenta de seu tabardo. De perto, Tiana tinha uma visão melhor de seu rosto. E de seus olhos, brilhando levemente em vermelho na escuridão. Não havia dúvida do que ele era. Tiana ergueu sua lança e disse: "Vejo que você é um vampiro. Sinto muito por isso. Quais são suas últimas palavras?"
Ele ergueu as mãos, palmas para fora. "Anjo de Serra." Ele se curvou profundamente para ela, exatamente como um verdadeiro cavaleiro benalita. "Juro por Serra que não vim aqui para ferir ninguém."
"Não veio?" Tiana perguntou, curiosa. "Você é um vampiro, então, você sabe, tem que estar planejando ferir pessoas em algum momento."
Ele balançou a cabeça, e ela viu que ele parecia exausto. "Não. Não sou assim por escolha. Luto contra minha condição com toda a minha vontade."
"Quem é você?" Tiana perguntou. Seria mais preciso dizer quem você era, mas aquilo também parecia acrescentar insulto à injúria.
"Sou Arvad, Cavaleiro de Benália. Fui capturado e transformado em vampiro." Sua voz era estável, mas havia um fio de resignação nela. "Tentei não ferir ninguém, e tive sucesso na maior parte."
A certa distância atrás dela, Tiana ouvia Mari sussurrando uma explicação aos trabalhadores que saíram para defender o acampamento. "Por que ela ainda não o matou?" alguém disse.
Tiana não tinha total certeza de por que ainda não o matara. Conseguia sentir que ele era um vampiro, mas algo lui era diferente. Ela disse: "Defina 'na maior parte'."
Arvad desviou o olhar, então admitiu: "Luto contra a Cabala sempre que posso. Às vezes, no calor da batalha, não consigo me conter."
"Mas apenas contra a Cabala?" Tiana perguntou. Era um ponto moral complicado. A Cabala era por definição composta de assassinos alegres, e até abraçavam suas próprias mortes. E não era como se um cavaleiro benalita mortal não estivesse matando clérigos e restos sombrios da Cabala também. Ele apenas não estaria bebendo o sangue deles.
"Apenas contra eles," disse ele, e Tiana sentiu que ele dizia a verdade. Após um momento, acrescentou: "Não sei onde isso se encaixaria no código moral da Igreja de Serra."
"Bem, eu estava pensando justamente nisso. É difícil. Sou nova nisso também," disse Tiana. "A Cabala assassina muita gente inocente, e eles são tão iludidos que não parecem se importar se vivem ou morrem. Mas beber sangue . . . " Ela balançou a mão. "É difícil dizer. Mas voltando ao ponto, a Cabala não está aqui, então por que você está espreitando nosso acampamento?"
"Não estava espreitando, estava caminhando abertamente," Arvad corrigiu, e gesticulou para os campos vazios ao redor lui. "E . . . não tenho total certeza. Fui atraído para este lugar, primeiro para Bogardan, depois em direção a esta área. Quanto mais perto chegava, menos minha compulsão me afetava. Ficava cada vez mais fácil resistir a ela, até . . . até estar parado aqui. Mal a sinto agora. O alívio é indescritível." Ele hesitou. "Pode ser você? Estive à vista de outros anjos, e eles nunca me afetaram desta forma antes."
"Não, não sou eu." Tiana achou que ele soava honestamente confuso. E se ele realmente estivera sentindo sua compulsão diminuir quanto mais se aproximava do acampamento . . . Ela tinha um forte palpite do que poderia estar influenciando-o. "Quando você começou a se sentir atraído para cá?"
Arvad teve que pausar para pensar. "Foi na noite de lua cheia, há dois meses. Aconteceu subitamente. Eu estava na costa leste de Aerona, seguindo os últimos sobreviventes de um grupo de batedores da Cabala, e senti . . . É difícil descrever. Matei os restos sombrios, roubei um pequeno barco e naveguei nesta direção."
Aquilo era a confirmação da teoria de Tiana. Aquele fora o dia em que Jhoira trouxera a Weatherlight à superfície, o dia em que a prece dela despertara sua Pedra de Poder de volta à vida. "Acho que tenho uma ideia do que pode estar causando isso."
Pedra de Poder Desgastada | Arte de Henry G. Higginbotham
A voz dele ficou áspera de esperança. "Algo por perto. Acha que poderia me curar?"
"Vale a tentativa," disse Tiana. Baixou a lança. Beber o sangue de cultistas da Cabala poderia ser um ponto moral complicado para a Igreja, mas a possibilidade de uma cura para o vampirismo não era. "Venha, vamos tentar. E nem precisa dizer que, se você tocar em alguém aqui, eu te limpo como um peixe."
"Isso provavelmente não me matará," Arvad alertou-a.
Ele era certamente honesto. "Eu bolarei algo," Tiana prometeu.
"Justo," disse Arvad, e começou a avançar.
...
Tiana ficou de lado enquanto Arvad encarava a Pedra de Poder. "Está fazendo algo?" perguntou ela. A equipe de trabalho sênior amontoava-se na extremidade oposta do compartimento de acesso ao motor, armada até os dentes.
"Não." Arvad virou-se. Seus ombros tensionaram-se sob sua armadura batida, como se ele estivesse lutando contra uma onda de emoção. Então encarou-a, resignado novamente. "Obrigado por me deixar tentar." Assentiu para Hadi e os outros, incluindo-os em seu agradecimento. "Gostariam que eu partisse?"
Tiana olhou para Hadi e Tien. Tien aproximara-se, espiando Arvad. Ela disse: "Seu rosto está melhor. Não tão pálido. E seus olhos não estão tão vermelhos."
Tiana concordou. "Pode nos mostrar seus . . . " Apontou para a própria boca. "Você sabe."
As sobrancelhas de Arvad arquearam-se com a estranheza do pedido, mas ele abriu a boca para revelar suas presas. Os olhos de Tiana estreitaram-se. "Definitivamente menores."
Hadi assentiu. "Também acho."
Tiana olhou para os outros. "Precisamos discutir algumas coisas," disse ela a Arvad.
Voltaram ao convés sob o céu estrelado. A equipe de trabalho instalara um sistema de iluminação funcionando a partir da Pedra de Poder da Weatherlight, e Hadi o ligara de novo já que todo o acampamento estava acordado agora. Insetos zumbiam ao redor das lâmpadas do convés e o restante da equipe de trabalho esperava perto das valas de cozinha. "Dê-nos um momento," disse Tiana, e deixou Arvad parado na amurada enquanto se retiravam para conversar.
"O que vamos fazer?" Hadi disse. "Ele está dizendo a verdade. Podemos ver."
"Mas nós confiamos lui?" uma das outras perguntou.
"Vou deixar vocês decidirem," disse Tiana. Eram eles que estariam sob maior risco. Tiana poderia não ser um anjo de batalha, mas em um confronto vampiro versus anjo, ela definitivamente apostaria em si mesma.
Esperou enquanto os outros conversavam, de braços cruzados, observando Arvad. Ele estava largado na amurada, e ela pensou em como seria crescer e tornar-se um cavaleiro, dedicar-se a proteger Benália contra perigos e lutar contra as forças crescentes da Cabala, apenas para ser capturado e transformado à força em um monstro com a compulsão de alimentar-se de sangue humano. Fazia o problema dela, ser um anjo criado para responder às preces de pessoas que não mais existiam, parecer um pequeno inconveniente em comparação.
Finalmente todos terminaram de falar, e Hadi lhe deu o veredito. Ele não parecia feliz com a decisão, mas disse: "Não sabemos se ele está dizendo a verdade; não temos razão para confiar lui. Mas outros, eu inclusive, detestamos mandá-lo embora se a exposição contínua à Pedra de Poder puder curá-lo. Como compromisso, ele pode ficar, mas não em nosso acampamento, e você deve comprometer-se a vigiá-lo."
Tiana assentiu e foi contar a Arvad.
Ele pareceu surpreso por não ser mandado embora imediatamente. Disse: "Isso é muito generoso. Eu aceito."
Arte de Lius Lasahido
...
Sob a influência da Pedra de Poder, Arvad perdera sua sensibilidade vampírica à luz solar, então acampava na praia, muitas vezes tirando a armadura para ficar na arrebentação com uma vara e pescar peixes para complementar o jantar dos trabalhadores. Tiana, observando-o das dunas, relatou a Tien: "Ele diz que é a coisa mais normal que fez desde que foi transformado."
"Você deveria ir pescar também," Tien lhe disse. "Você tem trabalhado tanto, precisa de um descanso."
"Hum," Tiana disse. Não queria descanso, queria trabalhar nos sistemas da Weatherlight enquanto ainda tinha chance.
Mas ao menos com Arvad ela tinha alguém com quem conversar à noite que também não dormia, e que compartilhava sua fascinação pela Weatherlight. Sentou-se na praia com lui durante sua pausa da patrulha noturna, e ambos contemplaram a nau voadora. Com o luar brilhante e sua visão noturna, era quase tão bom quanto olhar para ela de dia.
"Tem algo no casco ali embaixo," disse ele certa noite. "Aquela mancha escura."
Tiana espiou. "Parece uma mancha de fungo. Para regenerar o casco, Jhoira usou uma semente de um espírito de árvore chamado Molimo. Notamos que tende a brotar coisas ocasionalmente."
Perplexo, Arvad perguntou: "Como ela conseguiu aquilo?"
"Porque ela é a Jhoira." Tiana abriu um largo sorriso. "Ela é uma força da natureza."
Arvad pausou. "Ela não é . . . a Jhoira? Aquela das lendas sobre a Weatherlight original?"
"Ela é aquela Jhoira, e aquelas não são lendas, são todas verdadeiras." Tiana admirou o modo como o luar batia nos novos vidros das aberturas da Weatherlight.
Arvad digeriu aquilo em silêncio por um tempo, então disse: "Ela pretende usá-la para lutar contra a Cabala, então. Você a ajudará?"
Tiana baixou a cabeça. Não era um assunto confortável para ela. "Não sou um anjo de batalha. Eu deveria apenas guardar o acampamento e vigiar a Pedra de Poder. Garantir que ninguém tente usá-la para nada exceto propósitos bons e justos."
Arvad pareceu surpreso. "Não achei que você fosse um anjo de batalha, achei que fosse um anjo artífice."
Tiana franziu o cenho. "Não. Não existem anjos artífices."
"But você é quem está dirigindo todo o trabalho." Ele tocou o ouvido. "Existem poucas coisas boas sobre a minha condição, mas a melhora na minha visão e audição é uma delas."
"Não tenho nenhuma habilidade oficial de anjo. Eu não deveria estar trabalhando nos motores, mas eu apenas — " Tiana acenou as mãos, tentando explicar. "Serra está me dando o conhecimento de onde as coisas devem ficar. Consigo ver como tudo deve funcionar."
"Se Serra está lhe dando esse conhecimento, então é uma habilidade oficial de anjo," Arvad disse.
Tiana não tinha certeza de por que queria argumentar sobre o ponto. Poderia ser alguma lealdade inata à Grande Máquina, destruída que fora. "Mas esse não é o meu propósito."
"Qual é o seu propósito?"
"Eu deveria guardar uma grande máquina, mas ela fora destruída antes de eu chegar lá. Nasci tarde demais. A igreja não sabe o que fazer comigo agora. Vigiar a Pedra de Poder foi minha primeira missão real."
Arvad acenou em direção à Weatherlight. "Aquela é uma grande máquina."
Tiana suspirou em exasperação. "Mas também não é a minha tarefa. Serra está me dando o conhecimento para ajudar a reconstruí-la, mas a Weatherlight não é minha razão de existência."
"Só porque sua razão original de existência foi destruída não significa que você não possa ter outra. Acredite em mim." Ele viu que ela estava desconfortável com a conversa e mudou de assunto. "Talvez quando Jhoira retornar, eu possa oferecer meu serviço a ela." Olhou para ela, com expressão séria. "Você deveria também."
Tiana não respondeu. Em um mês ou pouco mais a Weatherlight estaria pronta para voar novamente. Poderia deixá-la voar sem ela? Terá que deixar, disse a si mesma. Era um anjo, e juntar-se à tripulação de Jhoira não era seu propósito.
...
Os longos dias quentes passaram, o trabalho continuou, e Arvad não comeu ninguém, embora a Pedra de Poder ainda não o tivesse curado. Tiana estava começando a achar que ele realmente pretendia ficar até Jhoira retornar para poder pedir para se juntar à tripulação dela. Estava preparando-se para não sentir inveja se Jhoira concordasse. Arvad merecia uma chance.
Então, certa tarde, ela estava no convés com Hadi falando sobre o teste final do motor quando captou um clarão de luz na distância. Subiu para equilibrar-se na amurada. Alarmado, Hadi seguiu o olhar dela. "Aquilo foi o vulcão?" disse ele.
"Não. Não, é pior." Tiana ergueu a voz e cantou o alarme. "Todos, corram! Abriguem-se nas rochas!"
Arte de Daarken
Riscando em direção a eles vindo das montanhas estava uma fênix. Uma ave de rapina enorme, sua envergadura várias vezes o tamanho da de Tiana, seu corpo inteiro envolto em chamas. Ela vai queimar a Weatherlight, Tiana pensou, e uma fúria a encheu, tão pura e ardente quanto a luz sagrada de Serra. Nunca, nunca. Não enquanto houvesse fôlego em seu corpo. Saltou para o ar, mal consciente de Hadi descendo o andaime, da equipe de trabalho correndo para fora das tendas e gritando em alarme.
Conforme a fênix mergulhou, Tiana preparou sua lança e dardejou em direção ao seu peito. No último instante, ela rolou para baixo e sob ela. Seus pés em garra golpearam-na. O calor a lavou e uma dor ardente rasgou seu ombro e a derrubou e quase a tirou do ar. Bateu as asas para recuperar-se e circulou de volta. Mas a fênix aproveitou a oportunidade para mergulhar baixo sobre o acampamento e incendiar as tendas. Tiana gritou em fúria e mergulhou para atirar sua lança nas costas dela.
A asa dela subiu e a atingiu, e as próprias asas de Tiana se embaraçaram. Caiu, atingiu uma rocha e ricocheteou. Deslizou por uma encosta de cascalho e lutou para ficar de pé, desembaraçando as asas. Sua lança era um monte derretido. Com o terror congelando seu coração, ela girou para ver a Weatherlight. A fênix mergulhou sobre a nau voadora vulnerável e não havia como ela chegar lá a tempo —
Então a fênix deu um solavanco, tirada de seu curso por uma flecha atingindo seu pescoço. Ela queimou a flecha para fora de seu corpo com um tremor de suas penas de fogo, mas outra tomou seu lugar, depois outra. Tiana escalou de volta ao topo da rocha e viu Arvad no chão perto da nau voadora. Ele tinha um arco longo e estava soltando outra flecha.
Tiana sacou sua espada e a ergueu, e orou pela magia sagrada da Igreja de Serra. Instantaneamente sentiu o poder divino fluir através dela para sua mão. Abriu as asas bruscamente e saltou das rochas, então pegou o air novamente e inclinou-se para cima. Enquanto a próxima flecha de Arvad atingia a fênix, Tiana disparou para dentro do fogo e enterrou sua espada logo abaixo do osso do peito.
A criatura guinchou e retorceu-se no ar. Determinada a impedi-la de cair sobre a Weatherlight, Tiana a empurrou em direção à praia. Continuou empurrando até que sua pele começou a chamuscar e o medo primordial de queimar suas asas a fez soltar. Batendo as asas para manter-se no ar, assistiu à fênix tombar, tentar se endireitar, e então cair nas ondas em um monte quebrado.
Tiana voltou-se para a margem e ocorreu-lhe que suas roupas e possivelmente seu cabelo estavam de fato pegando fogo.
Pousou na terra batida perto do acampamento e Farim correu e atirou um balde de água nela. Ela borrifou, com a água escorrendo pelo rosto. Arvad jogou um cobertor molhado sobre as asas dela e perguntou com urgência: "Você está bem?"
Agora que o fogo apagara, Tiana podia notar que o dano era superficial, e anjos curavam rápido. "Vou ficar bem." Viu que Arvad parecia chamuscado também, e seu tabardo claramente pegara fogo em certo ponto. "E você?"
"Arvad nos salvou," Tien disse, ainda respirando com dificuldade. Apontou para a ruína fumegante de uma tenda. "Ele levantou a lona para que pudéssemos sair. E ele salvou a Weatherlight. Acho que ele salvou você também."
Havia muitas coisas que Arvad poderia ter feito, com Tiana morta e o acampamento em caos. Alimentado-se dos trabalhadores fugindo do acampamento ou roubado a Pedra de Poder e fugido com ela. Em vez disso, agira exatamente como um cavaleiro benalita deveria.
E Tiana agira exatamente como um anjo guardião. O anjo guardião da Weatherlight. O pensamento da nau voadora ser destruída quase a destruíra. Sabia agora que a defenderia até a morte. É isto que você quer, Serra? Tiana perguntou, mas não houve resposta. Talvez porque já tivesse sua resposta, quando Serra empoderara sua espada com força suficiente para matar a fênix com um só golpe.
Quando Jhoira retornasse, Tiana ofereceria servir como tripulação na Weatherlight. Não era o propósito para o qual nascera, mas era o que ela queria mais que tudo.